Casa, teatro e esquina

segunda-feira, agosto 28, 2006

A doce calma

Liberdade cerceada. Há muito, talvez, passei a acreditar muito mais em cores do que em palavras, contudo, são essas que vêm me salvando há algum tempo. É difícil conviver com o azul-e-branco das folhas de caderno ou com a poluição visual-sonora dos grandes espaços urbanos. Se ele existe, deus sabe o quanto eu caminhei sem rumo, apesar de a direção ser sempre a mesma. E, talvez, essa mesmice tenha me machucado demais, porque não me faz bem a perda de escolha.

(sempre teremos coração para recomeçar, eu sei)

Eu tive três chances ou quatro de recomeçar em apenas vinte e nove horas. Almofadas, música árabe, suor derramado, ligações às duas da manhã, alguns sorrisos amarelos, algumas piadas mal-contadas, uma visita-relâmpago com gosto de lua crescente. Nunca soube perder ou ganhar, mas sei que não gosto de tristeza. Se mesmo os trios elétricos com rimas mal-feitas tentam impedir o nosso bem-estar, não deixo que o encanto bem cantado por nós suma por tão pouco estilhaço.

Os meses custam a passar. Mas eu nunca tive pressa e não vai ser agora que vou deixar esse mundo conturbado estragar o que há de melhor em mim. Afinal, de grão em grão a galinha enche o papo, contanto que tome o cuidado para não morrer de fome durante o seu curso. A pressa é inimiga da perfeição e da curiosidade que toda a forma de vida me provoca.

sexta-feira, agosto 25, 2006

O fogo da solidão

E nada impediu de o mundo não ser perfeito, ele assim se fez por si só. Aliás, a perfeição não existe, apenas a busca pela mesma. Nem os homens, que se encontram impregnados de um perfume caro chamado orgulho, são perfeitos: apenas se enganam quanto à sua incapacidade diante das coisas. E acho que nem isso eu consigo fazer muito bem. Ainda bem...

Afinal, de nada vale ser o dono da verdade - a não ser que ela lhe renda alguns sorrisos amarelos e uns milhões de centavos no bolso. Bom, mas bom mesmo, é saber que nenhum caminho conduz ao final e que esse final sequer existe. Desistam, irmãos! O que nos resta é colocar a cabeça para fora da janela do trem e respirar o monóxido de carbono gerado na queima do carvão. É o que os poetas chamam de êxtase, uma espécie de tontura causada pelo excesso de emoção vital.

Embora o inverno tente me convencer do contrário, a vida é um forno. A temperatura aumenta com o tempo e a gente precisa da carne para dividir o nosso duro sofrimento de inox. Será que o prato final vai fazer sucesso? Espero que sejamos aprovados pelo chef e ele nos leve ao banquete da arte e da glória, como um resultado positivo do poder da criação. Sei que o nosso tempo é pouco, mas é suficiente para que a demora não transponha o nosso jovem prazo de validade.

A união consiste em não deixar o fogo nos consumir.

terça-feira, agosto 22, 2006

No embalo da rede

Entre uma rede e um livro, ainda me sobra tempo para dar um ar de graça nessa bela válvula de escape. E ouvir um pouco de Jim Morrison para fugir dos pés esticados no meio-fio da rotina é ainda um bom modo de deixar os minutos sangrarem. E como assunto novo é coisa difícil de fazer quando não se é uma dondoca de janela de bairro, eu admito que não venho com nenhuma grande idéia em mente. E é quando a vida deixa de ser fantástica que me lembro das sábias palavras de um amigo da faculdade: "a vida simples é coisa muito complicada".

(querem que eu prove? Assistam "Anti-herói americano" ou leiam "American splendor", o que dá no mesmo...)

E algum dia desses, numa noite fria de semana, uma fã ardorosa (sim, tenho alguns!) veio me perguntar por que os meus ensaios não continham humor. Antes de tudo, confesso minha inclinação para o drama, que parece conter um pouco mais da minha personalidade recatada. E, depois, acho até que as minhas letras trazem um pouco de alegria. Não que seja uma gargalhada bem gorda, daquelas que a gente sente o pulmão sair pelo umbigo, mas acho apenas que tento levar uma sensação de bem-estar aos leitores ao tentar enxergar nos pequenos nuances do dia-a-dia um pouco de beleza e fantasia. E depois de assistir a "O fabuloso destino de Amélie Poulain" é que eu realmente confirmei: a felicidade está nas pequenas coisas.

Não que eu não seja fã de uma boa piada ou da risada bem-servida, mas é só questão de prioridade mesmo. E falando em prioridade, amanhã a velha e pacata Joelina, professora de Sociologia, resolveu nos dar uma pseudo-folga: não preciso de ônibus lotado, sol no rosto e almoço mal-digerido para me dirigir a uma sala de aula, mas também não me abstenho do dever de realizar o resumo de um livro. Quem sabe eu termino ele ainda hoje e consigo uma quarta-feira para brincar um pouco de relaxar. Olha o violão! Ré menor, si bemol, sol menor, dó com sétima, deixa eu viver assim, quase sem pressa...

quinta-feira, agosto 17, 2006

Menos um...

Com quantas rotinas se faz uma vida chata? Imaginem se o São Paulo jogasse todas as quartas-feiras do ano? Além de eu sempre chegar sonolento na aula das oito (aquela em que a professora só deseja o mal dos seus alunos), eu ficaria enormemente desapontado de assistir ao time o ano inteiro e, no último jogo, o goleiro largar a bola no pé do atacante adversário. Uns dizem que é uma vergonha, eu prefiro me calar. De todas as vezes que fui a escanteio, voltei com classe e estilo numa bela viagem em gol olímpico.

(O ministério da saúde deveria advertir: fugir da agenda faz bem para o coração)

A universidade parecia o Centro hoje, mas até gostei: não é sempre que tenho a chance de tomar um copo de café Santa Clara bem açucarado. E, para contrariar minha preguiça de buscar a lista, um estande da Tapioca Alagoana estava presente e aproveitei para anotar o telefone em minha agenda para dar o golpe do baú em minha mãe algum dia qualquer. Só espero que toda essa movimentação não esteja impregnada pelas terceiras intenções de alguns homens de gravata.

E tive saudades. Aliás, tenho-as desde o último abraço. Nem mesmo reassistir a "Abril despedaçado" conseguiu suprir sua ausência - longe disso, na verdade. Os dias parecem uma roda de bois, assim como as palavras. Preciso de uma chuva, de uma sereia, de suas cores. O menino, alguém precisa vir buscá-lo. A sede de liberdade é o solo em que pisam meus pés. Para mim, a dialética das horas não cansam de me lembrar que falta menos um, menos um, menos um segundo para te beijar. Mas até quando vai essa contagem?

(Pena os telefones falharem às vezes)

segunda-feira, agosto 14, 2006

O caminho dos anjos

A minha busca terminou. É tão fácil observar as pessoas e perceber que elas sempre estão atrás de algo que traga sentido à vida. Claro que veremos muitos casos de almas que se perderam no caminho e não conseguiram sequer um esboço de final feliz, embora tenham tentado mais do que podiam - o que já poderia significar uma vitória. E, acho até que esse é o caso mais comum, sempre haverá aqueles que andam em linha reta até a felicidade e a estrada nunca conheceu uma curva. Bem-aventurados sejam os homens sem idéias, visto que todas essas sempre foram curvas.

Porém, ainda guardo as minhas. Guardo as idéias como se fossem uma medalha ganha após eu me tornar vencedor de mim. Filho da Maiêutica, eu consegui descobrir qual o mundo em que meu coração quer fazer casa. Nada é tão belo quanto você conhecer a si mesmo. Fugir das dúvidas de um mundo em infinita expansão da informação e selecionar apenas o que você quer ouvir. Eu tenho o molho com as sete chaves do meu corpo - aliás, fiquei com seis ao deixar uma cópia em mãos alheias, mas seguras demais.

Lembra de quando tínhamos seis anos e o sonho era o novo vídeo-game na vitrine? Ou aos dez, quando esse sonho era uma bicicleta sem rodinhas? Caímos bastante, mas valeu a pena descobrir uma realidade (mesmo que parcial). Aos treze éramos tão rebeldes e talvez o sonho fosse uma tatuagem, um brinco, uma pracha de surfe, um skate (ainda bem que essa fase passou)...! Agora é fase de pensarmos em um futuro para nós e para os que vierem depois. É hora de buscar algum lugar para acalmar o impulso criativo. É hora de abraçar a política, a ciência, a arte, o ócio, o esporte ou a vida em si e seus entraves.

É hora de abraçar algo que te faça sentir completo. E, como já havia dito antes, a minha busca terminou. Já sei a estrada onde vou caminhar até o fim dos dias. Agora, o próximo passo é continuar arborizando.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Ao som dos sinos

A oscilação de um clima maluco em Aracaju pode transformar uma alma. Ainda tento remediar ouvindo os novos discos de Oswaldo Montenegro que eu tenho baixado, mas nunca vão me roubar aquela imagem que encheu meus olhos de dó. Foram cinco horas e poderiam ter sido dez, quinze, "vim-te levar para um lugar melhor". Meus olhos não piscavam para suprir a necessidade dos seus, que, de tão fracos, não conseguiam se abrir. A chuva leve descia com um vento que aumentava a febre: do sangue em seu corpo, da bondade no meu. Queria ter deixado com ela as mãos que tentavam aplacar sua dor. Logo ela, que sempre esteve ao meu lado - o tempo todo.

O rosto frágil confirmava o drama da vida. A lágrima era um clímax e eu me aventurava em passar meus minutos ali, sentado, confiando meus ouvidos à sua tosse. Das sombras que iam nascendo com a morte do sol, eu me colocava como a parede negra pela ausência de luz, como aquele pedaço de medo fantasioso, pois escondia o brilho apenas para o ter em dobro quando acordasse. E tive a honra de ser o guardião-mor do seu sono, um sono tão fino que qualquer assovio parecia um comício político discursando atrás de votos analfabetos. O importante foi que tive uma manhã sem sono e ela, uma manhã sem suores.

E foi como terminou o nosso filme. Com a morte de nossos anseios, de nossos temores, de nossas dúvidas. Se o céu azul dessa sexta-feira fosse um templo de Deus e o motor dos carros que não se preocupam em correr (enquanto não chegar o rush) fossem o choro de algumas senhoras, sentadas em bancos de penitência, que esperavam eu confirmar a união, eu olharia novamente aqueles olhos e presentearia o seu anular esquerdo com minha companhia eterna. Logo eu, que sempre estive ao lado dela - o tempo todo.

terça-feira, agosto 08, 2006

Encontrar

Momentos felizes. Tudo que queremos é dividir esse sorriso fácil com o mundo. É quando pensamos em deitar o céu para ficarmos nas nuvens e fugir do piso em que todos pisam. É quando o manequim velho da vitrine parece acenar para você e o motorista carrancudo do ônibus conta uma piada de domingo numa terça-feira. O seu corpo parece pequeno demais para tanto movimento, para tanta euforia. Você precisa de algo para deixar escapar esse gás do riso: um caderno, um diário, um violão, um urso de pelúcia, uma mãe, um pai, um amigo, um vizinho, um colega de trabalho, um filho, um primo, um avô, um amor.

Momentos tristes. Tudo que queremos é encontrar algum novo caminho no dedo reto de alguém. É quando a porta do quarto é mantida fechada para isolarmos nossa angústia contagiosa. É quando o rádio não traz nenhuma canção nova ou quando a carta escrita com seu nome marcado em batom volta intocada pelo destinatário. O seu corpo parece pequeno demais para um planeta cinza e insosso. Você precisa de algo para fazer os pássaros voltarem a cantar: um caderno, um diário, um violão, um urso de pelúcia, uma mãe, um pai, um amigo, um vizinho, um colega de trabalho, um filho, um primo, um avô, um amor.

E eram os olhos quase invisíveis para dar lugar aos lábios desenhados em "v" tudo o que eu tinha. O sol era escaldante, mas eu o julguei belo. Eu corri. Os minutos correram. Eu suei, cansei, persisti, quase morri, pensei que valeria a pena e valeu. Cheguei pontualmente por um minuto ou dois e os relógios não costumam me trair. A voz dizia que foi o encontro perfeito. Um ménage à trois. E saímos abraçados eu, a decepção e a solidão.

E me tranquei em meus modos, só pensando em outra forma de te encontrar.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Eu te amo

Nada como acordar numa manhã cinza de segunda-feira para me apresentar ao exército. É quando a vida se renova e eu apago algumas mágoas recentes. Não que um sábado não tenha plenas condições para se tornar um dia bom, mas é fato que eles não vêm sendo assim. Foi um dia em que minha (in)finita paciência foi logo esgotada em alguns gritos contidos, graças a alguns olhares de reprovação, alguns palavrões de impaciência, alguns choros de egoísmo...eram seis bilhões contra dois. Era o mundo real de seis continentes contra o mundo imaginário de dois corações sem limites. Admito, mesmo correndo o risco de cair no famoso espaço do lugar-comum, que faria cama do seu colo e lençol dos seus braços, com sua voz sendo uma canção de ninar. É quando dormiria surdo para assuntos banais.

Mas não foi nessa fantasia que a vida caminhou, apesar de ser bem melhor pensar assim. Lembro apenas de alguns flashes, como as mãos no volante que guiavam um corpo tonto, um desmaio por duas horas, uma insônia à meia-noite e um texto perdido sem razões aparentes. E nada mais faria sentido se não fosse aquela que faz jus à sua função de anjo da guarda. Bastou que eu olhasse para o céu adormecido às duas horas da madrugada, visse o seu sorriso facilmente desenhado em Cruzeiro do Sul e lembrasse de quantas vezes sua mão afagava minha cabeça em meu silêncio contemplativo da tristeza e da solidão. Então, ainda que correndo o mesmo risco anterior, embora não me dê à preocupação de uma terceira voz vir a falar de nós, só me resta algumas palavras que talvez sirvam como solução a todas as nossas preocupações:

- Eu te amo.

E durante a pronúncia das sete letras junto mais cinco do seu nome e formo doze. Doze são os números do relógio que me fazem pensar naqueles olhos. Olhos tristes, mas de uma beleza superior. E é quando lembro que compreensão não é encontrada em qualquer curva de uma estrada sem asfalto, mas ela vem sempre empacotada nas veias coronárias de alguém que julgaremos especial. Algumas pessoas passam a vida inteira procurando por esse alguém e eu tive a sorte de encontrá-lo desde cedo. E assim eu dividi as mulheres em duas: a minha futura esposa e todas as outras.

Sei que alguns podem considerar essas palavras restritas demais, que não vale a pena considerar tais parágrafos como uma crônica (e ainda mal escrita, por sinal). Mas, como disse há algumas linhas virtuais, não irei me preocupar com isso. Ao menos não hoje, por ser apenas um dia em que tive chance de agradecer por todo o esforço que me foi direcionado no resgate da minha felicidade. E aliado a essa condição, assisti ao filme "Peixe grande" no domingo (dividi o meu tempo na criação de uma resenha, mas nada poderia me estragar agora), o que me dá um pouco de veia poética e fantasiosa. E mesmo que as coisas tivessem perdido a graça por alguns instantes, não foi com grande dificuldade que tudo voltou ao estado habitual de graça constante. Admito que devo desculpas a qualquer um de vocês, mas palavras nem sempre são fortes como um abraço. Talvez eu prefira uma maneira diferente de pedir redenção.

E como eu disse antes, a vida se renova. Ainda bem que o serviço militar me livrou do fardo de carregar uma arma.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Entre o sete e o oito

Apenas um trio de dias, mas o suficiente para fazer os olhos sofrerem ao som do sal que os molhava de leve. O mundo parecia estar em pane sem um coração a dar partida ao motor da vida. Eu não podia alçar vôo sem aquelas asas que tanto pareciam um conjunto de anéis vermelhos. Eu sequer me lembro do que minha mãe preparou para o jantar. Pode ter sido uma sopa de feijão à la Resun ou uma pizza de lombo e catupiry, mas o estômago não sentia fome e a língua era tão insensível como a língua de Romeu sem a de Julieta. Está escrito em alguma parede do meu quarto que eu não existo sem você.

Sentado na última fileira do cinema, devo talvez ter escolhido um tema para uma futura pesquisa na faculdade: "Animações digitais e semiótica". Assisti ao "Os sem-floresta", que logo relacionei a uma paródia muito bem construída à legitimidade dos movimentos sociais de base, além de fazer uma crítica à condição primeira do ser humano que é a de elemento último na cadeia alimentar. Segundo um guaxinim muito esperto, os animais comem para viver, enquanto os homens vivem para comer. E me lembro de "Shrek" e sua crítica sobre beleza e felicidade e ao mundo fashion. Ou até "Madagascar" e sua referência explícita ao mito da caverna de Platão, onde os animais nascidos no zoológico se sentiam desencorajados a ver o mundo exterior. Escolhamos uma das duas opções: ou eu ando vendo coisas demais, ou os produtores de animações infantis andam visionários demais (até uma alusão a "Cidadão Kane" eu pude ver hoje).

E mesmo os professores da segunda-feira sumindo sem aviso ou a prova da terça-feira sendo adiada não puderam tirar minha animação em ver esse filme. Sei também que preferia que alguma das cinco cadeiras restantes aos meus lados fosse ocupada por alguém mais importante que minha mochila. Hoje me perguntaram como eu consigo organizar meu tempo e dividir vinte e quatro horas entre o sono, o estudo, a política, o cinema, o jogo do São Paulo, o blog, o flog, o orkut, o tempo perdido nas viagens de ônibus, os minutos cedidos para buscar minha irmã na escola, etc. Eu ainda brinquei comparando-me a Hermione e sua ampulheta que manipulava o tempo, mas sei que, nesses casos, a vida supera o cinema e a vontade de viver amplamente supera qualquer arquétipo. A oitava arte, o amor: ah! Essa é quem me faz brincar de inventar mais uma hora para eu chegar sempre aonde eu quero ir.