Vidas em trânsito
Quantas oportunidades de nos relacionarmos com as pessoas realmente temos no mundo moderno? Serei razoável bastante e generalizar, dizendo que são raríssimas. E por que não dizer que os ônibus poderiam cumprir essa função? Em alguns países, as pessoas cultivam o hábito de fazer do ônibus mais do que um meio de transporte, mas também se reúnem em estações e veículos para discursarem sobre suas vidas e seus cotidianos. Uma pena para nós...Em minha pacata cidade, andar de ônibus nunca foi sinal de alegria. Erro de planejamento político ou espírito de consumismo e realização individual? Eu não sei. Apenas posso descrever a tristeza da segregação que nos atinge. O preconceito já se inicia na formação das linhas de roteiro, quando não existem ônibus que cruzam bairros finos concomitantemente a bairros pobres. O número 100, por exemplo, é um dos mais bem-vistos e arrumados, afinal, atravessa os dois shoppings da cidade. As pessoas se regojizam de estarem indo às compras em um prédio limpo e elegante. É a vitória do homem contemporâneo!Deve ser realmente interessante você acordar cedo e, ao invés de se lembrar das aulas chatas na escola ou na faculdade, você pudesse ter a certeza de encontrar pessoas interessantes e falar de coisas interessantes. Porém, a nova diversão do principal terminal da cidade tem sido ver os cobradores em horário de lanche lançarem algumas piadas insossas sobre um travesti orgulhoso e exibicionista. Ao menos, é menos depressivo do que ver senhoras pedindo esmola alegando ter filhos para alimentarem, mas serem vistas segundos depois com uma carteira novíssima de cigarro barato.Tudo bem, ao menos fui rápido o bastante para conseguir um assento no ônibus que leva alguns aspirantes a pequenos-burgueses. Não se preocupem, eu lembrei de me oferecer para segurar os cadernos dos que não tiveram a mesma sorte que eu. Eu desço no próximo ponto. Pronto. Por nada. Foi um prazer! Em cinco minutos eu estou na casa da minha querida namorada e esqueço da miséria embutida em cada litro de combustível queimado nos motores do nosso sistema de transporte público.
Quatro linhas e um objetivo
- Puxei a camisa dele, e ele me disse: "Se você quiser, te dou a camisa depois do jogo". Respondi que preferia a irmã dele. Não é uma coisa que se diga, é verdade. Digamos que ele foi mais francês, e eu mais italiano: Ele foi mais irônico, eu, mais grosseiro.(Palavras de Marco Materazzi, zagueiro da Azurra que sofreu a cabeçada proferida por Zidane na final da Copa do Mundo de 2006 e autor do gol de empate de sua seleção no primeiro tempo regular)O futebol, assim como qualquer outro esporte, é um campo de exibição para os sentimentos humanos. Como mais explicaríamos meus passes e minha visão tática de jogo se não por minha personalidade altruísta? E o sentimento de que sempre posso decidir a partida? Talvez apenas um reflexo da minha megalomania e da minha excessiva confiança em tudo que realizo. E duas pessoas orgulhosas e competitivas na mesma quadra? Uma casa de quatro quartos, sendo um suíte, também não os suportaria.A vida pode ser entendida dentro de quatro linhas. Por que não? Sempre existirão pessoas que levaram o jogo a sério, que farão de tudo para atingir o objetivo proposto pelas regras: o gol. O gol é o momento máximo do futebol, quando os torcedores entram em êxtase ou depressão e os jogadores alavancam seu status perante os demais atletas. Claro que também existem os que jogam para se manterem em forma, ou para reunir os amigos, ou para dar uma risada mais sincera do que se estivesse assistindo o Faustão, ou apenas para atormentar quem realmente quer jogar, ou apenas para fazer parte de todo o espetáculo, mesmo que as pernas e os pulmões denunciem o oposto.Não é por ser dono da bola que eu jogo, mas porque extravaso um pouco da minha personalidade em cada chute. Gosto de me sentir importante e por isso sempre dou o máximo de mim, mesmo que os músculos estejam acenando com a bandeira branca. Já gostei mais de colocar a bola na rede, mas hoje em dia prefiro a beleza do drible ou a troca de passes como a personificação da amizade. O importante é fazer a vida parecer suave. E fazer saltar os olhos de quem assiste.É fazendo a partida decorrer em harmonia que eu imito a minha vida e escondo a saudade, pois sei que os minutos jamais serão infinitos.
A última confissão
Confesso que tenho andado meio perdido e cansado demais. E a tristeza tem sido meu pior castigo. Não sei do que eu preciso, se uma dose de calmante vai me ajudar, se a solução para isso está embalado numa caixa de bombons ou na mão aberta de um mágico. A única coisa que sei é que as noites têm sido mal dormidas e os sonhos não têm sido exatamente sonhos. Onde estará o que tanto me embalava as horas, mesmo que eu nunca o tenha visto?Preciso de férias. Preciso fugir um pouco de mim, que não sabe onde encontrar repouso. Preciso reencontrar a minha metade que adorava os prazeres da vida: comer lentamente uma barra de chocolate, ler um livro durante a madrugada ou enxugar o suor de sua blusa com a língua. Fico constantemente no embate moral de aproveitar o dia de hoje por inteiro, mas e se todos os nossos infinitos beijos acabarem nesse dia? Eu quero o presente, o futuro, eu quero tudo. Tudo! Tudo que me faça um pouco mais senhor de mim.E se eu acordasse durante uma entrevista e aquele senhor barbudo e magro e cabeludo me perguntasse sobre a minha alegria? Eu simplesmente responderia que, sim, eu não tenho motivos para reclamar. Eu tenho um dos melhores céus nascendo todas as manhãs na janela, eu tenho a melhor das mulheres para me acompanhar no dia-a-dia ou alisar delicadamente meu rosto, eu tenho as melhores vozes para compor o coro da grande sinfonia da vida. E se o mesmo senhor perguntasse, então, por que eu estou assim? Não hesitaria em dizer:- Talvez eu seja tão feliz que eu fico confuso por não saber por onde começar a aproveitar.
Sobre a vaidade
O ser humano é capaz de tudo. É capaz de amar, de construir uma casa, de realizar uma reunião de amigos, de cantar, de ler um livro, de preparar um café, de abrir os braços a um primo distante, de dar esmolas a um mendigo, de provocar uma briga, de xingar um empregado, de fingir ser um seqüestrador para receber o dinheiro do resgate, de esfaquear uma idosa para afanar-lhe a bolsa, de ceifar vidas "para o bem da humanidade", de roubar cadáveres, de vender o corpo alheio.Essa visão parece um pouco escura demais, com o homem visto como escravo do próprio bem-estar. E será que não seria correta? Afinal, nos dias de hoje, as pessoas demonstrar se preocupar muito pouco com o mundo. Estarão todos dispostos a contribuir para o embelezamento da vida? Tanto o monge das montanhas no Himalaia (com muitas idéias e poucas ações) como o executivo de um escritório em Manhattan (com poucas idéias e muitas ações) se mostram humanitariamente ineficientes. "Esqueçam o futuro"!O individualismo é o mal-do-século. E eu penso em como as pessoas devem, assim como eu, sentir-se mal em carregar esse destino com elas. Somos absurdos pontos no imenso plano das idéias e das mudanças. A ponte não está carregada de cerejas e, mesmo assim, é difícil atravessar para o lado oposto: apenas os mais destemidos conseguem admitir que é necessário coragem para fazê-lo se equilibrando nas cordas laterais. E, mesmo sabendo do vento sul que balança essa ponte, são muito poucos os que realmente se arriscam a correr esse risco.E assim eu vou seguindo: um sorriso enigmático de Gioconda e passos lentos de Fabiano. A incerteza do certo e do errado, apenas a repúdia do bom-senso. Sei que um dia vou cair em desuso por minhas linhas ultra-românticas, mas são as únicas que tenho. O que me resta é ter orgulho e continuar deitado, vendo minha sombra dançar, de madrugada, ao som do rádio que eu não liguei.
A sede dos pássaros
Cansaço ou falta de tempo: nada disso justifica a minha ausência. A vida, definitivamente, não é feita para as pessoas que vivem de desculpas. Portanto, prefiro aparecer de peito aberto e dizer que não venho tendo tanta paciência assim. O quê? Logo eu, o senhor da calma? É...por que não admitir que o tempo destrói tudo, como argumentou Gaspar Noé em um de seus polêmicos filmes? Não adianta tentar fugir: também eu sou vítima desse processo.E partindo da suposição de que o tempo é nosso deus e de que nosso livre-arbítrio cai de joelhos diante de sua imponência, eu me lembro dos pássaros. Sim, os pássaros que a natureza encarregou-se de guiar até a minha varanda. Aos domingos sou obrigado a renovar a água (vezes por imposição materna, eu sei) e penso: por que eles sempre voltam aqui? Seria por que eu sempre ofereço a eles um pouco de luz vital? Ou eles não têm outro lugar no imenso e absurdo planeta em que possam encontrar água?A paz encontrada pelo hábito é que os traz de volta ao meu lar todos os domingos. Embora amanhã eu não precise ir até a varanda, graças às chuvas restantes do inverno, sei que os encontrarei de novo com um canto da mais triste alegria. E, para não deixar que o tempo os arranque da minha sofrível existência, cultivo essa simples e bela rotina de prolongar e afinar as notas que compôem a sua música. A música dos pássaros, a música da liberdade, a música do vôo. Deixá-los ao léu seria desenhar um mapa para que se abrigassem em outra varanda.Não deixe que a sede de tudo que for belo afaste-o de você. Os homens também precisam de água em seus vôos diários.
Livro de receitas
A vida é pura. Se eu pudesse, mandaria uma carta a todas as mãos que ensinasse o segredo de ver as coisas com simplicidade. Sinto pena dos homens que querem inventar nomes para tudo o que vêem. Todos eles estão perdidos no complexo emaranhado do dicionário de uma filosofia vã. Uma casa sempre será uma casa, e não um conjunto de medidas, cimento e cifrões. Uma casa sempre será qualquer lugar que você se sinta seguro. Por que chamar de Complexo de Édipo o que poderia ser uma simples falta de carinho? Façam reverência às crianças e seus olhos ingênuos e malucos.Acordar numa segunda-feira com um sol tímido por trás das nuvens é bom, com uma mensagem carinhosa no celular, melhor ainda. Ter um domingo de tranqüilidade e uma paixão lenta e segura é o caminho mais curto e florido até o bem-estar. Escutar um belo show de Mpb também está entre as sobremesas no meu cardápio de uma vida bem digesta. Não vamos entrar em conflito: a sua felicidade pode estar no ponto da torre Eiffel ou em um canto inacessível de um banco nas Bahamas, mas é preciso que estreite sua visão para que não se perca em uma infinidade de conceitos que lhe transfigurem a paz.O segredo para que se olhe além é olhar pouco e olhar demais. Todo infinito é composto de um vasto mundo de pouquinhos. No final, as perguntas e as respostas não são sempre as mesmas? É preciso sinceridade e humildade para fazer florescer as nossas dúvidas, nossos anseios, nossos desejos. É preciso que se olhe a mulher de sua vida como o seu espelho, o segundo travesseiro, o sobrenome da saudade. É preciso que um beijo seja apenas um beijo, não um objetivo. É preciso que um coração seja um coração, não um emaranhado de veias destruídas por células de gordura. E, para não correr o risco de ser pintado de cinza e fumaça, é preciso que o amor seja simplesmente o amor.
Não quero mais brincar de forca
Se a Teoria do Caos for verdeira, o vento produzido pelas asas da bendita borboleta veio fazer furacão em minha vida. E como sempre gostei de paradoxos gerando o equilíbrio, esse furacão até que me veio bom, matando bem o calor de fim de inverno. Agora, só falta lembrar onde eu guardei o meu melhor casaco. Mas depois de uma boa conversa, acho que já sei mil maneiras de esquentar os corpos.(não existem crimes, apenas existem ações)A minha quinta-feira nasceu às seis da manhã com assinatura do diabo: noite mal-dormida, chuva fina até o ponto de ônibus, trabalho rejeitado pela arrogância da professora, peixe frio com escamas para o almoço (um primo cego e maneta teria limpado melhor aquele peixe, eu sei disso), desatenção na prova de Produção de Texto e engarrafamento produzido por um político de extremo-centro, daqueles que nem sabem o que significa conjuntura. Foi incrível notar que ninguém saía do lugar...Mas o tempo tem também das suas ironias. Uma ótima notícia de um professor-amigo (ou vice-versa) me deixa um resto de sorriso até agora. Uma partida de xadrez na biblioteca para aliviar a vida. Um lugar vazio no ônibus de volta para casa. Dois ônibus 711 no terminal. A mochila de um garoto presa na porta do ônibus como um castigo por não emprestar uma passagem ao amiguinho. Um beijo debaixo de uma árvore solitária, em pleno trânsito de Hermes Fontes.Todas essas coincidências (ou não) me fazem bem. Não adianta problematizar, simplificar em duas linhas o que você não pode compreender. Imagine seus pensamentos como uma corda que apertam, apertam, apertam o coração. Imaginou? Então, deixe-se acreditar, pois viver supera qualquer entendimento.