Casa, teatro e esquina

quinta-feira, outubro 26, 2006

Sonhos em uma chuva de verão

Por quatro ou cinco dias, eu vi as horas caírem tão forte quanto a chuva. Chuva dessas que vêm quase de surpresa (antes não existissem os telejornais) e matam os planos de quem desejava um domingo na praia. Eu vi as ruas e os carros debaixo d'água e não vi o sol, que se escondia em cima do céu negro. A umidade da atmosfera cegava o horizonte. Era o tempo ideal para se trancafiar num quarto, tirar a saudade do peito e colocá-la em cima da cama. E eu tinha saudade de ficar confortável nos braços da morena. (Logo ela, que sempre tinha sido um sonho de ternura e diamante, tão intocável e essencial quanto a luz).

Como um mendigo sem abrigo e pisando descalço no chão enlameado, lancei-me sem proteção em minhas lembranças, que, de tão sinceras, pareciam reais. Senti aqueles lábios chovendo em meu rosto, em meu corpo. Ou então as palavras vindas de sua garganta ventando frias em meu ouvido. Assim como a enchente inundou casas, essa sinestesia onírica inundava o meu coração, que ia aos poucos tendo suas paredes derrubadas pelo excesso de beleza que precipitava das nuvens em seus cabelos.

Além da doçura que pingava dos seus olhos, que pareciam duas barras de chocolate derretido injetando serotonina em minhas veias e espantando a minha depressão habitual. A violência, a frieza, o egoísmo, o cinismo: o medo que tenho da face que os homens escondem por trás de sorrisos é apagado por aquele olhar, que me fascina como um relâmpago no meio da madrugada escura. Com toda a tranqüilidade que me é passada, é agradável, então, dormir com o barulho das poças se formando e com o aroma da terra molhada.

Quinta-feira azul. A normalidade é retomada. Revivo a minha vontade de abraçar o seu corpo e respiro o ar seco e quente dos meios de semana. O gosto de rotina da minha severa Aracaju volta a alcançar meu paladar.

quinta-feira, outubro 19, 2006

O vestido da noiva

O mistério é o tempero das paixões. Apesar de o mundo estar cada vez mais descoberto, dissecado, e as garotas não mais estarem preocupadas em esconder os tornozelos, ainda existem tons dissonantes na monotonia da vida ritmada em quatro por quatro. Assim como a curiosidade é a arma da evolução, também é o pilar que sustenta a nossa existência. Não existe nada mais triste que o conformismo, o ser humano que se confunde com o vegetal (ainda que as flores sejam amáveis).

No casamento, o clímax acontece três ou quatro vezes: a saída para a lua-de-mel, o beijo dos noivos (um dos gostosos clichês da vida) e até no instante em que o casal se olha e profere um sim. Mas pare para pensar: existe algo tão revestido de uma aura indefinida como o vestido da noiva? Quantas e quantas pessoas não ficam torcendo o pescoço dos bancos da igreja apenas para vê-la entrar exuberante em cena e depois dizerem, com as lágrimas benzendo o rosto, o quão linda ela está?

Enquanto houver discrição na hora em que são feitas e refeitas as linhas desse vestido que ficará escondido até o último minuto, a cerimônia será de uma doçura inimaginável. Eu imagino o coração do felizardo, as pernas vacilando no altar, as veias morrendo de amor e curiosidade, os olhos que desejam encontrar os milésimos de segundo que lhe fazem seu futuro cintilar e ser pintado de uma flamejante eternidade. Um singelo pretexto para encantar a vida dos homens.

Peço mil perdões aos realistas, mas a vida precisa de um pouco de poesia. Ainda que o romantismo seja uma fraude (não aos meus olhos, garanto), peço que nunca se esqueçam que a felicidade consiste em não sermos reais. E quando a realidade é transvestida de fantasia e a nossa mente idealiza o que nos cerca, a única certeza é de que nos renovamos e nos tornamos belos. Também sei que, às vezes, minhas palavras me tornam indecifrável e assim consigo meu objetivo: fazer brilhar a mente de quem lê.

sábado, outubro 14, 2006

O império dos números

Sexta-feira treze. Não deveria significar algo, entretanto. A estranha combinação do décimo terceiro dia do mês com o sexto da semana resulta em uma aurora mítica de azar e tragédia. Dizem se tratar de uma superstição antiga. Então, por que eu acreditaria, nos dias de hoje, em um suvenir da evolução humana? São apenas números e nada mostram! A despeito da minha descrença, o acontecido aconteceu: tive meu celular roubado (por um rapaz que precisava de cifras), perdi as minhas suadas economias e quase pintei de um roxo-vinho eterno a novíssima calça cinza.

Se eu dissesse que o celular custou duzentos e cinqüenta reais, as pessoas sentiriam pena pela perda (ou não, dependendo da inclinação do seu nariz e da rentabilidade de sua conta bancária), mas acredito que tão poucos creditariam a minha tristeza por ter perdido, para sempre, quase um ano de boas recordações. Se eu dissesse que moro em um condomínio onde consigo ver a Lua às doze horas, escutar o coral da igreja, ver os pássaros se deliciando em poças no asfalto e os namorados se beijando em despedida no portão, o meu ouvinte pediria que eu fosse mais específico. Mil setecentos e quarenta...satisfeito?

Enquanto um político preferir criar dez mil empregos em vez de fazer uma pessoa enxergar a beleza da vida, o mundo será de uma frieza milimétrica. Como a terceira variável em um polinômio com unidades imaginárias, somos prisioneiros de uma conta de somar. Passamos a vida inteira buscando fazer o que é lógico para mais tarde nos arrependermos de não termos sido mais insensatos. Não tenho raiva disso, apenas não consigo entender o motivo de quase ninguém notar essa situação. Sei que parece loucura, mas é disso mesmo que eu quero tratar: até que ponto nos vale a razão?

Nos serve apenas para recriarmos o que é inexistente. Há quem se glorifique de conseguir traçar e analisar todas as curvas que poderiam ter sido feitas na estrada da própria existência. Quantas curvas existem? Infintas. Quantas podem ser traçadas? Uma. Então, por que se preocupar? Se cada um de nós eliminássemos os medos imaginários, teríamos bem mais condições de lutar por tudo que é real e inevitável. Os números são uma forma de fingir real tudo o que for abstrato. E mais nada.

Sabe? Se eu pudesse mudar cada número por uma canção e cada equação por um sentimento, a vida seria um disco do Chico Buarque.

"O homem é o que ele acredita" (Tchekov)