Casa, teatro e esquina

sábado, outubro 14, 2006

O império dos números

Sexta-feira treze. Não deveria significar algo, entretanto. A estranha combinação do décimo terceiro dia do mês com o sexto da semana resulta em uma aurora mítica de azar e tragédia. Dizem se tratar de uma superstição antiga. Então, por que eu acreditaria, nos dias de hoje, em um suvenir da evolução humana? São apenas números e nada mostram! A despeito da minha descrença, o acontecido aconteceu: tive meu celular roubado (por um rapaz que precisava de cifras), perdi as minhas suadas economias e quase pintei de um roxo-vinho eterno a novíssima calça cinza.

Se eu dissesse que o celular custou duzentos e cinqüenta reais, as pessoas sentiriam pena pela perda (ou não, dependendo da inclinação do seu nariz e da rentabilidade de sua conta bancária), mas acredito que tão poucos creditariam a minha tristeza por ter perdido, para sempre, quase um ano de boas recordações. Se eu dissesse que moro em um condomínio onde consigo ver a Lua às doze horas, escutar o coral da igreja, ver os pássaros se deliciando em poças no asfalto e os namorados se beijando em despedida no portão, o meu ouvinte pediria que eu fosse mais específico. Mil setecentos e quarenta...satisfeito?

Enquanto um político preferir criar dez mil empregos em vez de fazer uma pessoa enxergar a beleza da vida, o mundo será de uma frieza milimétrica. Como a terceira variável em um polinômio com unidades imaginárias, somos prisioneiros de uma conta de somar. Passamos a vida inteira buscando fazer o que é lógico para mais tarde nos arrependermos de não termos sido mais insensatos. Não tenho raiva disso, apenas não consigo entender o motivo de quase ninguém notar essa situação. Sei que parece loucura, mas é disso mesmo que eu quero tratar: até que ponto nos vale a razão?

Nos serve apenas para recriarmos o que é inexistente. Há quem se glorifique de conseguir traçar e analisar todas as curvas que poderiam ter sido feitas na estrada da própria existência. Quantas curvas existem? Infintas. Quantas podem ser traçadas? Uma. Então, por que se preocupar? Se cada um de nós eliminássemos os medos imaginários, teríamos bem mais condições de lutar por tudo que é real e inevitável. Os números são uma forma de fingir real tudo o que for abstrato. E mais nada.

Sabe? Se eu pudesse mudar cada número por uma canção e cada equação por um sentimento, a vida seria um disco do Chico Buarque.

"O homem é o que ele acredita" (Tchekov)

2 Comments:

  • Só tenho a concordar. Nada contra exatas, são extremamente necessárias para o progresso humano, porém, o que é a vida sem arte?
    Ela dá pinceladas de cor à nossa cinza realidade (Parafraseando Mägo de Oz, hehe).

    By Blogger Ailton, at 00:21  

  • Porém, que função tem o progresso se ele não for humanizado e todos notarem que não se tratam de uma ciência, mas da evolução dos costumes do homem?

    By Blogger Fernando Júnior, at 12:33  

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