Verso livre de rapaz
Ah, morena, se soubesse o desvio que faz no coração daquele rapaz ao deixar a cidade. Quem vê o quase coitado, cabreiro, pelos cantos, conversando mudo com as paredes, sabe que o equilíbrio está girando num pneu daquele ônibus executivo. A vida é curta demais para ser gasta num traço preto de borracha quente numa curva sinuosa. E o rapaz gastando horas e horas num pensamento que poderia ser um abraço ou uma taça de champanhe virada na orla de uma praia. Sua boca deve estar com gosto de areia.Ah, morena, se soubesse como sua ausência é fogo que consome aquele corpo. O rapaz já nem distingue as imagens no telão, se é drama, se é ação, se é comédia ou ficção. E deitado numa cama, sem lençol, o corpo sua na vontade de pecar, os ossos desabam pelo tédio de não ter o que cansar. E você, morena? Não avisa quando volta, se é logo ou se demora, se a vida pode terminar em flor. Ele disse que vai até o fim, seja em Tóquio ou na Recife de Bandeira. Você é atração turística em qualquer lugar do mundo.Ah, morena, se soubesse que a paixão é a bola sete, o sorriso da Mona Lisa. E nem tudo que reluz é ouro, mas o seu sorriso fez brilhar o coração do seu rapaz. A saudade é um termômetro medindo o verão chegando. Deus-o-livre-e-guarde você seja uma miragem! Entre um suspiro e outro, escuta uma muriçoca que tem o sangue como pretexto para contar o seu segredo: nem mesmo a distância separa o que o acaso fez unir. Todavia, ainda assim, quando tiver tempo, mande um cartão-postal com gostinho de beijo seu.
O mundo é o espelho da alma
O mundo anda tão feito de plástico e aço que, às vezes, eu tenho medo de me perder no emaranhado da artificialidade. Penso até que, se eu nunca pudesse burlar as barreiras do real, os meus dias seriam tão duros (embora sem o mesmo brilho) como grafite tornado diamante. Adorno e Horkheimer já falavam sobre a constituição objetiva da cultura na sociedade moderna, que não cede espaço para a imaginação e o sonho do ser humano. Estudos posteriores apontaram lacunas em seus estudos. Sorte a nossa! Dá para imaginar (que paradoxo) uma vida sem imaginação?Afinal, de nada valeria o mundo material se não pudéssemos criar um sentido para ele. Eu faria homenagem às escadas. Não as escadas em que tropeçavam os mais velhos, mas as escadas em que a noite cedia espaço para mais um beijo do casal adolescente. Ou lembraria da escola como um palco para minhas megalomanias, e não como uma simples instituição formadora de intelectos. Talvez até encontre nessas linhas uma possível explicação para minha paixão pelo cinema: um filme não é apenas o que vemos, mas tudo o que desejamos que ele signifique.E caminho fazendo do meu passado um bem precioso. O tempo, o mesmo que torna o grafite em diamante, vai enchendo de aura todas as minhas lembranças. Ao dar adeus à carne, escreverei, no meu epitáfio, que me despeço apenas do céu azul, das músicas tristes e das pessoas que me fizeram bem. E não da vida como a representação de tudo que eu não queria ser. Aliás, a vida, por si só, não pode significar felicidade. A nossa capacidade de amar é que transforma um universo indiferente em algo dotado de virtudes. Nascemos para ser felizes, basta inventarmos a melhor maneira de fazê-lo.
Marinheiro de primeira viagem
Eu e meu barquinho de papel. Era o único da escola que subia as escadas sem rasgar. A encarnação da suavidade. E eu enchi o barquinho com tudo que eu precisava: sonho, sorriso, sopro, casa, jacaré e fita dos Mamonas. A linha que me dava o comando da minha tripulação era tão fina que podia arrebentar-se a qualquer momento, mas nada que um nó não desse conta. Ser criança é nunca ter medo do impossível. E eu enfrentava todos os perigos, como Cristóvão Colombo fazia nas aulas de Estudos Sociais.E os dias desaguávam. Até que fui para a porta da escola esperar minha mãe para alcançarmos mares ainda maiores. Os meus olhos avistaram, lá fora, outros estudantes, mas esses não tinham barquinho ou felicidade. Estavam sendo golpeados e arrastados por piratas, que mais tarde descobri serem policiais. A partir daquele instante, percebi que a vida não era de papel, mas de sangue e confusão. Pela primeira vez eu estava triste por não ter enchido meu barco com pessoas. O fio se partiu, mas, antes que eu pudesse agir, meu estômago deu um nó. Nó cego de desespero.Depois desse momento de vertigem, notei que não conseguia mais viver sem alguém ao meu redor, qualquer mão ou olho que ajude a me guiar. O barbante continua tão vivo que às vezes ainda acho estar na direção do leme. A verdade é que eu era jovem demais para estar no controle e, na minha irritante mania de saltar etapas, não aprendi a lidar com a solidão. E agora, quanto maior o mar, maior o vazio que assombra a cabine. Como seria mais fácil traçar o meu próprio destino se eu pudesse romper os laços da união humana.Há dez anos atrás, não me ensinaram que viver era tão penoso quanto encontrar um caminho seguro para se cruzar o Pacífico. Só hoje percebo que eu ainda não sei navegar.
Corpo, mente e alma
Há quem insista que as universidades federais são ultrapassadas e deveriam deixar de existir enquanto tais. São os cupins do neoliberalismo que tentam corroer as nossas paredes de madeira para transformá-las em ouro maciço. Contudo, cada um de nós é uma célula ideológica e trabalhamos como o inverso dos cupins: de dentro para fora e sempre construindo em vez de destruir. É uma ação quase mágica, revolucionária. O milagre da resistência e da determinação contribuindo para uma vida heróica.Nossos corações de sangue, papel e luta são o motor de uma engrenagem quase enferrujada. Cada pesquisa realizada em nossas salas é uma gota de óleo que nos renova, um grito que evidencia a nossa existência. Podemos agora ter um nome, um brilho que salta dos olhos e uma mente que se espalha na tinta que escorre das canetas. As tardes de fome e cansaço são apenas pretextos para tornar nossas vitórias revestidas de uma glória imaculada, intocável como a luz do Sol. Somos raios de luz, a iluminação nas sombras do novo milênio.Se já passou por nossas cabeças o medo e a vontade de desistir, é inevitável como a tristeza do pintor que amputa um braço. Mas cada sorriso docente ou cada roda de conversa embaixo de árvores que se escondem das escavadeiras haverão sempre de rebobinar o filme. E começa tudo de novo. Nosso amor, nosso passo errante, nosso nado contra a correnteza do anonimato. O anel de Giges é retirado e enfrentamos de peito aberto toda e qualquer adversidade. A nossa amoralidade guia nosso intelecto para o caminho da felicidade.Ser universitário é, acima de tudo, ter coragem para ultrapassar as barreiras que, inevitavelmente, nos conduzirão à liberdade.