Pensamentos de chaminé
Minhas palavras hoje têm potencial para serem as últimas do ano, por isso, soarão como um suspiro final. E antes de eu vir com a revelação de que Papai Noel não passará por aqui (calma, é só porque não tenho chaminé ou meias na janela) gostaria de uma pequena reflexão sobre os meus pedidos na virada do ano de 2005. Dentre tantos outros, acho que a minha súplica mais verdadeira foi por liberdade. E o que é liberdade? Bem...depende do lugar onde você guardou as chaves.Foi por pouco, mas consegui, aos poucos, me livrar das cores e cordas de Almodóvar. Com isso, aprendi a amar ainda mais tudo o que faz parte de mim. Aprendi que nós damos apenas o que temos, por isso resolvi plantar algumas sementes de compreensão e, hoje, mando para cada uma das minhas paixões um buquê com doze flores desse elemento mágico da existência humana. O único resto de mau destino que me acompanha é a vaidade, mas é dela que eu encho o peito dos filhos meus (e disfarço, dizendo ser orgulho).E, fazendo as contas, até que não foram precisos tantos sorrisos para comprar sorrisos seus. Que presente, afinal! Além de fazer do meu tempo uma rena de nariz vermelho, consegui naqueles braços o oposto da solidão. Meus dias caminham mais fortes do que nunca, meus olhos se fecham mais relaxados do que nunca, minha imaginação cria mais sonhos do que nunca. E de quantos Natais precisamos para perceber que felicidade pode ser fabricada todos os dias, sem precisar de duendes no Pólo Norte?No mais, guardem uma taça de champanhe e não me tragam lentilhas.
Brilho cego de uma mente sem lembranças
- Ei, venha aqui! Você sabe quem eu sou?- Se sim, nunca vi tão feliz. Por que esse sorriso?- Perdi a memória.- Ah...boa sorte, então...- Boa sorte? A minha grande sorte já é estar assim!- Hã?- Todas as minhas dores, angústias, o desespero de estar vivo: tudo diluído e bagunçado em alguma área do córtex!- Você é uma reportagem sem gancho.- Quê?- Isso. Um homem sem lembranças só pode gerar ações sem sentido.- Mas...- Tudo o que você faz deve envolver suas experiências. Agora, deve perder ao menos uns dois ou três anos de sua vida para tentar levar uma vida normal. Mas será que o tempo vai ser tão generoso com você?- Eu tenho experiências. Só não consigo lembrar de cada uma delas.- Ih...o parnasianismo da existência, a hipocrisia e a ignorância do ser. O ato pelo ato, o tapa pelo tapa, o sexo pelo sexo. O instinto que devora o instinto e você como sobremesa.- Acho que você está com inveja.- Inveja? De quê? De ter uma cabeça vazia e livre de raciocínios lógicos? Uma vida sem significado? Uma percepção cognitiva abaixo de zero? Olhar o meu quarto ou um retrato e não sentir nada por eles? Não ver um só rosto em que eu sinta ao menos um pouco de afeto? Não, obrigado. Há dezoito anos que eu luto para fugir dessa condição!- A vida inteira? Bem pensado...é como se eu fosse uma criança agora, não?- Sem carinho ou aura, é bem verdade.- Estou ficando preocupado...- Está vendo? É assim que se começa! Uma preocupação, um conflito interno, uma tentativa de se libertar e pronto: você descobriu a alegria!- Eu não gostava de preocupações antes.- Por isso preferiu se afugentar na covardia de perder...você disse "antes"?- Disse?- Espere...agora olhando bem...você não é aquele que estudou na escola da esquina, que sempre sentava perto da porta na oitava série?- Ah! Logo percebi que sabia quem era você!- Caramba! Bons tempos aqueles, hein?- Nem me fale...lembra daquelas aulas de geometria? Hoje eu não sei nem desenhar um quadrado!- Lembra que você pediu um dinheiro emprestado para a feira de ciências? Por que não me pagou? Por que você sumiu?- (...)- Filho-da-puta!
Alea jacta est!
Meu coração é um suicida em potencial. Cada hora é uma lança que faz o pulso tremer em adrenalina. Cada vestígio de sangue derramado nas veias é uma gota que, ao mergulhar num imenso oceano, toma proporções absurdas, infinitas. É dessa forma que eu glorifico cada minuto de cansaço: a solidão do erro se transforma na imensidão da conquista. Afinal, são os reveses que movem o homem em direção à perfeição, que só existe quando vivemos em pecado.Do pecado nasce a tragédia. Mas sei também que, somada a uma boa dose do mais fino tempo, cada lágrima será um riso um dia. Sabem por que os americanos nunca ganham uma partida de xadrez? Porque jogam sem as duas torres. Quem ousaria fazer piada, porém, em setembro? A espera é a cura dos males, por isso sei que, um dia, estarei rindo de cada pedra no caminho, de cada zumbido no ouvido e cada roupa suja de suor e areia. De preferência, estarei na varanda, sorrindo junto com as estrelas.Como um kamikaze, vou golpeando a alma em prol de um bem maior: sonhar. Sem a culpa ou o remorso, cada deslize meu se converte em um passo, um passo, um passo. Continuo trilhando a terra batida, um andarilho carregado de incertezas e, paradoxalmente, planos. Existe um tanto de doçura em cada gesto meu. A paz é um conceito relativo, assim como qualquer princípio subjetivo num mundo essencialmente aristotélico. Por isso sei que, nessa dialetante guerra, meu último soldado gritará: "por nossa coragem e resistência, vencemos"!
A gota d'água
A gota d'água de Chico multiplicada em milhares, cada uma delas fazendo girar o moinho da impaciência, triturando a minha alegria e o meu bem-estar habituais. Assim, cada defeito meu vem à tona, como o inverso de um golfinho que busca ar na atmosfera, como uma andorinha fotografada em tons escuros. São tantos os pensamentos que eu mal consigo transformá-los em palavras. E as palavras não-ditas se alastram no meu pensamento como um câncer, um esboço de angústia.Quantas dialéticas a mente humana consegue suportar? Interesse público ou do público? Dinheiro ou prazer pelo que faz? Conformismo ou desistência? Tese e antítese são lados imaginários da ação, são os extremos que regem os confrontos, mas nunca são a solução dos mesmos. Não existem dois caminhos a serem traçados pelos homens, mas apenas um. As dúvidas são apenas para permear de confusões nosso destino, mesmo quando já temos a certeza exata de que os pés caminham para fora da caverna das sombras.Por isso, salto do coração de Chico ao de Gil e afirmo que o amor é como um grão. Sim! Porque o amor é o oposto da incerteza e, por isso, germina ao invés de podar. A felicidade é o fruto e o abraço é a flor. Mesmo que os dedos em meia-ponta façam o sangue circular mais lento nas pernas, o abraço é a causa da intoxicação saudável, da válvula de escape sanguínea. Se não fosse nesse sentido, duvido que corpo algum resistisse a doze horas diárias de batente e pó. A solidão é o pior castigo para o trabalhador.Se as minhas letras não inspiram criatividade, ao menos deveriam transmitir esperança e confiança, pois é unicamente disso que eu sou feito.