Casa, teatro e esquina

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Fantasmas no lar

Em um homem não se bate nem com um porrete. E palavras doem demais. Existem formas e formas de se esconder uma dor, mas nunca de curá-las. Cada corpo, cada mente, cada coração é uma colcha de retalhos numa extensa fila de lavanderia. Esperamos, eu sei, que a água de Tales nos renove, mas no máximo ela nos descobre os buracos e percebemos que nunca mais seremos os mesmos. No fim, somos todos fantasmas de nós mesmos e nunca aprendemos a não nos assustarmos com os erros.

Eu já quis dar forma a algumas soluções, mas sempre esbarro naquela voz medrosa. O pior é ouvir as cobranças. Ninguém pode dar aquilo que não tem. Talvez por isso eu não tenha conforto. O meu quarto parece uma cela com benefícios e já não sei quanto tempo ainda me resta de serviço comunitário. As correntes devem ser quebradas, pois não quero mais amar a bomba. Hoje eu conversava com uma colega na universidade e concluí que a vida só vale a pena se houver um desafio.

"Coloque um sorriso", ouvi hoje à tarde. "O que está acontecendo?", perguntam-me depois. Apenas cansei de passar por portas abertas. Preciso conhecer o que há por trás dessa ultra-proteção que me corta as asas, mesmo que, para isso, eu deixe meus sapatos e minhas certezas em cima do varal. Andar descalço e sentir o chão que traz o cheiro da liberdade e da criação. E, quando eu der o meu adeus, preciso não olhar para trás: não posso deixar esperanças de que um dia voltarei.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

A ovelha negra

"Tempos modernos" é o primeiro grito de Charles Chaplin contra o absurdo do capitalismo industrial. Zona de transição entre o riso e a revolta, entre o cinema mudo e o falado, entre o Vagabundo e o seu adeus. O enredo é apresentado como uma corrida do homem em busca à felicidade. Mas que felicidade é essa? E quais são os obstáculos que impede ao homem alcançar o seu tesouro? A primeira cena, que faz uma justaposição de imagens entre um rebanho de ovelhas e um grupo de operários, ironicamente sugere que nosso maior obstáculo é a passividade.

Pequenos enxertos na obra declaram sutilmente seus valores e convicções políticas. A cena em que é confundido com um militante comunista coloca em xeque a coincidência das imagens. Como de costume, as figuras do policial, do patrão e do burguês são ridicularizadas e desafiadas. Um paradoxo ocorre quando, durante uma revolta na prisão, Carlitos ajuda os policiais a conterem a greve. A minha solução foi considerar que o lado humanístico de Chaplin está acima de qualquer interesse de classe: a vida acima de qualquer tipo de violência teórica.

Portanto, não é de se espantar que a personagem vivida por Paulette Goddard prefira a fuga ao enfrentamento depois de realizar a justa partilha dos alimentos entre as crianças. Sua provocação contra o dono das bananas que roubou é, antes de ser sensual, uma ode contra o abuso da propriedade privada. Como todas as protagonistas femininas de Chaplin, Goddard é marcada pela melancolia, pela solidão e pela ousadia diante do universo. Pela primeira vez, Carlitos tem uma companheira para a caminhada final: são dois vagabundos, dois anarquistas, duas almas moralmente livres que se encerram em si mesmas. Chaplin é porta-voz do feminismo quando constrói mulheres que buscam se libertar da lógica machista.

Carlitos tem os olhos além. Onde vemos a mercadoria, ele vê o instrumento para o riso, para a dança, para a libertação. Em "Tempos modernos" a máquina engole o homem, mas Carlitos engole a máquina. Uma cena particularmente interessante é quando ele dança balé e jorra óleo no rosto dos outros operários, pois, para se safar dos contra-golpes, ele liga a máquina e todos os homens vão correndo salvar a produção: é o fetichismo da produção acima dos nossos interesses individuais. Sua canção final é uma sátira pseudo-italiana como crítica aos costumes burgueses. Porém, nos créditos iniciais, Carlitos é apresentado como um operário. Mas sugiro que procurem uma ovelha negra no rebanho da primeira cena.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Janeiros

Corredores do shopping lotados de gente despreocupada com o aumento das passagens de ônibus. Entro numa loja e vejo um de meus filmes favoritos nas prateleiras. O primeiro pensamento foi gastar meu suado dinheiro e ficar alguns minutos numa fila entre turistas e crianças cheias de vontade e ego (ah, se fosse filho meu). Enquanto espero minha vez, vejo a classificação etária do filme: proibido para menores de 18 anos. Portanto, nada de pais, extremistas religiosos e falsos moralistas no meu quarto durante a exibição de "Irreversível".

Não lembro o que eu fazia por lá, acredito que fui apenas brincar de gastar o tempo. Tempo que andava longo naquela quarta-feira e hoje anda tão logo que mal posso segurá-lo. Nos semáforos, crianças lutam por um pedaço de justiça e pão. Os vidros altos revelam a nossa apatia: cada prática cultural reflete um conflito social. À noite vou a uma missa em respeito a algumas pessoas que amo. Uma festa de casamento se encerra com uma voz (que lembrava um cabaré) cantando cenas de sexo em uma praia deserta.

Não existe desvio pior que a traição. Se acredito no amor, por que trair a coisa amada? Se acredito na paixão, por que trair o encontro dos corpos? Se acredito na liberdade, por que acorrentar o meu irmão? Enquanto reflito, vejo passar minha vizinha vestida em cores que parecem um carnaval e murmurando o refrão que perseguirá meus ouvidos durante esse verão. Só não vai quem já morreu. Prometo trocar as coreografias, a multidão e o espetáculo por algumas páginas sobre os estudos culturais. E se eu me trair? Aí, eu já era...

quarta-feira, janeiro 10, 2007

A escola da vida

Vida é coisa muito séria. Um dia a gente brinca, outro dia a gente chora e fica de castigo. Pior quem cai na besteira de nunca respeitar a tia: vive repetindo série e ficando sem férias no verão. Quem acha que pode viver só de riso, esqueça! Neópolis pode ser uma festa, mas a vida não é uma festa. Envelhecer é nossa única certeza, portanto, triste de quem não copia as lições no caderno. Quando as notas chegam no final do bimestre, talvez papai ou mamãe não queiram dar a mesada.

Nunca espere demais. Quem sai correndo da sala na hora do recreio sempre chega antes na quadra. É somente preciso tomar cuidado para a pressa não se transformar em agonia e você estragar tudo: sabe aquele filme de Chaplin que o professor de história passa na oitava série? Se você resolvesse sair correndo da sala, perderia um belo final, sabia? Então, por que não aproveitar que a sala está escura e dar uma olhadinha discreta para o amiguinho mais bonito? Ser inteligente, às vezes, é saber apreciar a beleza que existe no mundo.

E o que pode ser mais belo que o amor? Aquela paixão não tão secreta que você faz questão de contar ao amigo e esconder dos pais? No princípio era o verbo, depois veio o olhar, o abraço e, por último, o beijo. Tamanho nada tem a ver com poesia, eu sei. Afinal, o essencial é invisível aos números. Nunca adiantou medir a saudade com matemática e tentar dividir por dois ou três para tentar enganar meu coração. O diretor não deixa a gente falar dessas coisas, mas ainda me arrisco fazendo uma frase ou outra durante a aula de redação.

E, na hora do lanche, eu não levo dinheiro, apenas a fome de quem vive querendo sempre um pedaço a mais.

sábado, janeiro 06, 2007

Você devia saber

É incrível como o recurso da ironia engrandece um texto. A música "You oughta know" de Alanis Morissette é um perfeito exemplo disso. Na minha opinião, o "Jagged little pill" é, assim como o "Grace" de Jeff Buckley, um dos melhores discos dos anos 90. A segunda música do seu aclamado álbum relata um relacionamento que termina em suposta traição, em que a cantora não parece guardar mágoas nos primeiros versos ("quero que saiba que estou muito feliz por vocês dois / eu desejo apenas o melhor para ambos"). Essa visão é descontruída logo em seguinte.

Com a entrada do baixo e da guitarra, Alanis também entra com uma voz mais poderosa e questiona qual o diferencial que a nova amante do seu ex possui ("ela fala eloqüentemente? / ela vai ter o seu filho?"), terminando o verso com uma acidez de dar inveja ("tenho certeza de que ela dará uma mãe excelente"). Sua dicção ligeira no interlúdio nos remete a um impulso violento de vingança, culminando com a melhor frase da música ("e toda vez que você diz o seu nome / ela sabe como você me dizia que me abraçaria até morrer? / mas você ainda está vivo"). O argumento principal está no refrão, que ganha bastante em melodia com acordes maiores e com um verso que a faz parecer um Cristo às avessas ("não é justo me privar / da cruz que eu carrego graças a você"). A religiosidade é tema em muitas outras músicas do disco.

Ela novamente reafirma sua condição de desordem nos próximos versos ("eu não estou exatamente bem / eu achei que você devia saber"). O próximo ataque é mortal: quase cuspindo ao microfone, ela demonstra ódio e uma falsa compaixão por ter sido traída ("você esqueceu de mim, Sr. Falsidade? / eu odeio incomodá-los na hora do jantar"), finalizando o verso de uma maneira, digamos, categórica ("e você fica pensando em mim quando está fodendo ela?"). O último interlúdio tem suas palavras alteradas, reafirmando seu desejo de atormentar a vida do ex ("eu não vou desaparecer tão rápido quanto seu piscar de olhos / e você sabe disso") e trazer a mesma dor que ela está sofrendo, numa última frase que ganha força com o uso irônico do recurso do duplo sentido ("e toda vez que eu arranho as unhas nas costas de um outro alguém / eu espero que você as sinta / bem, você pode sentir algo?").

O baixo de Flea acrescenta uma sonoridade incrível ao fuzz produzido pela guitarra de Dave Navarro, criando um fundo musical que remete a uma confusão de idéias. Porém, poucos sons são tão agradáveis quanto Alanis fazendo backing da própria voz e, até hoje, eu ainda me surpreendo com a mixagem do disco. Sua voz nervosa, seu tom intimista, sua posição feminista e sua capacidade de transformar o cotidiano em uma música sublime fizeram de "Jagged little pill" um dos discos mais ouvidos da década, ganhando mais de 50 discos de platina pelo mundo. Apesar de sua carreira bem-sucedida, nenhum outro disco da Alanis alcançou a genialidade demonstrada em canções como "All I really want". Uma pena para os amantes de um bom rock, que quase se deu por morto após o endeusamento do Nirvana. Mas, por esse disco, a canadense vale ser eternamente citada como um dos bons nomes da música.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Num piscar de olhos

Os mesmos votos, os mesmos rostos, as mesmas piadas e até os mesmos erros de fotografia. A camisa negra é o oposto da mudança. A vida parece andar em círculos e o meu sorriso, em queda livre. A mesma gravidade que o empurra acentua a seriedade em meu rosto. É cansativo, às vezes, ter que dar explicações vazias a todo o mundo, quando eu sei (mesmo que prepotentemente) que as palavras não bastarão. Se cada uma delas tivessem olhos, eles estariam sempre piscando com desdém.

Se a vida crescesse na mesma medida em que cresce o meu ceticismo, talvez o meu corpo não suasse tão frio todas as vezes em que me deparo com a solidão. Não a solidão física, mas uma espécie de solidão abstrata, como uma parede de sons que me impedem de compreender o que se passa ao meu redor. O que me resta é dividir essa angústia com o meu eu que não se revela em cada olhar, aquela parte de mim que não dividi com ninguém e nem penso em pôr em exposição tão cedo.

Qualquer um pode acusar a minha frieza agora, mas a verdade é que não gosto de feriados. Não gosto do senso comum e prefiro comer brigadeiros no meu quarto enquanto todos se animam com os fogos no céu. Mais do que nunca, me senti perdido no meio de uma multidão de pessoas felizes e preocupadas em escrever seus sonhos em uma lista de papel e guardá-los no bolso durante a meia-noite. Sei que é bem melhor a preservação que o suicídio, mas auto-flagelação me parece um pouco cristão demais.

Meu coração e alguns sonhos nonsense. Batam à porta antes de entrar.