Casa, teatro e esquina

sábado, janeiro 06, 2007

Você devia saber

É incrível como o recurso da ironia engrandece um texto. A música "You oughta know" de Alanis Morissette é um perfeito exemplo disso. Na minha opinião, o "Jagged little pill" é, assim como o "Grace" de Jeff Buckley, um dos melhores discos dos anos 90. A segunda música do seu aclamado álbum relata um relacionamento que termina em suposta traição, em que a cantora não parece guardar mágoas nos primeiros versos ("quero que saiba que estou muito feliz por vocês dois / eu desejo apenas o melhor para ambos"). Essa visão é descontruída logo em seguinte.

Com a entrada do baixo e da guitarra, Alanis também entra com uma voz mais poderosa e questiona qual o diferencial que a nova amante do seu ex possui ("ela fala eloqüentemente? / ela vai ter o seu filho?"), terminando o verso com uma acidez de dar inveja ("tenho certeza de que ela dará uma mãe excelente"). Sua dicção ligeira no interlúdio nos remete a um impulso violento de vingança, culminando com a melhor frase da música ("e toda vez que você diz o seu nome / ela sabe como você me dizia que me abraçaria até morrer? / mas você ainda está vivo"). O argumento principal está no refrão, que ganha bastante em melodia com acordes maiores e com um verso que a faz parecer um Cristo às avessas ("não é justo me privar / da cruz que eu carrego graças a você"). A religiosidade é tema em muitas outras músicas do disco.

Ela novamente reafirma sua condição de desordem nos próximos versos ("eu não estou exatamente bem / eu achei que você devia saber"). O próximo ataque é mortal: quase cuspindo ao microfone, ela demonstra ódio e uma falsa compaixão por ter sido traída ("você esqueceu de mim, Sr. Falsidade? / eu odeio incomodá-los na hora do jantar"), finalizando o verso de uma maneira, digamos, categórica ("e você fica pensando em mim quando está fodendo ela?"). O último interlúdio tem suas palavras alteradas, reafirmando seu desejo de atormentar a vida do ex ("eu não vou desaparecer tão rápido quanto seu piscar de olhos / e você sabe disso") e trazer a mesma dor que ela está sofrendo, numa última frase que ganha força com o uso irônico do recurso do duplo sentido ("e toda vez que eu arranho as unhas nas costas de um outro alguém / eu espero que você as sinta / bem, você pode sentir algo?").

O baixo de Flea acrescenta uma sonoridade incrível ao fuzz produzido pela guitarra de Dave Navarro, criando um fundo musical que remete a uma confusão de idéias. Porém, poucos sons são tão agradáveis quanto Alanis fazendo backing da própria voz e, até hoje, eu ainda me surpreendo com a mixagem do disco. Sua voz nervosa, seu tom intimista, sua posição feminista e sua capacidade de transformar o cotidiano em uma música sublime fizeram de "Jagged little pill" um dos discos mais ouvidos da década, ganhando mais de 50 discos de platina pelo mundo. Apesar de sua carreira bem-sucedida, nenhum outro disco da Alanis alcançou a genialidade demonstrada em canções como "All I really want". Uma pena para os amantes de um bom rock, que quase se deu por morto após o endeusamento do Nirvana. Mas, por esse disco, a canadense vale ser eternamente citada como um dos bons nomes da música.

3 Comments:

  • massa! não sabia eu Flea e Dave Navarro gravaram nesse disco! Abraço!

    By Anonymous Anônimo, at 12:41  

  • MOFIIIIIIIIIOO!!!
    ESSA MUSICA EH MASSA DEMAIS!!
    E ADOREI VC COMENTANU ELA!!!
    MT MT MT MT MASSA MSM!!
    ME IDENTIFIKEI CUM ELA UM POKU!! HEHEH
    ;**********
    AMO-TE

    By Anonymous Anônimo, at 00:19  

  • Sabe quando as coisa estão na nossa frente e agente custa a querer acreditar...poize!! Quando a realidade vem a tona, e em um piscar de lucidez resouve-se abrir os olhos, nossa isso dói muito!! Mesmo a melhor alma, aquela que quer somente a felicidade do proximo, aquela que não busca em seus relacionamentos a mesma reciprocidade de sentimentos tende a ser invadida pela magoa. A ferida é grande!!
    É preciso que se saiba como isso dói, é preciso que a outra parte saiba como foi fundo o corte....
    Não precisa ser uma suposta traição, basta uma troca imediata de parceira ao fim de um relacionamento, digo que é preciso menos ainda, é preciso que apenas se saiba que quem lhe tinha passava os dias almejando outra...
    Aquela com quem poderia ter mais atenção, seria mais pervertida, falaria mais eloquetemente...

    Aquela que Alanis descreve perfeitamente nesse espetaculo de música.
    Música que foi apresentada e representada em palavras de forma magnifica. Com todos seus traços, sentidos e figuras, no texto de Juninho, que com sua sensibilidade nos permitiu de agora em diante degustar com mais sabor os versos dessa melodia de encaixe perfeito entre baixo, guitarra e a voz inconfundivel da interprete!!

    A síntese maestral...

    "Cause the love that you gave that we made
    Wasn'able to make it enough for you to be open wide, no" (Alanis Morisset)

    By Anonymous Anônimo, at 20:59  

Postar um comentário

<< Home