Casa, teatro e esquina

sábado, fevereiro 24, 2007

Cerejas

A chuva e o vento frio caíam atrás do vidro. Nós dois sentados na mesa mais discreta. Você de branco e eu de capricórnio: recortes de um milagre anunciado. Parecíamos Woody Allen e Diane Keaton em cores de 77. Cada sorriso daria uma ótima frase para o nosso filme. Quando as lâmpadas se apagaram por dois segundos eu não senti o escuro. Seus olhos são uma luz no fim do túnel. Senão você, quem mais dividiria afeto, empadas e saliva comigo? As palavras eram um redemoinho em nossas mentes e rosas em nossas bocas.

O caldo por um vinho, o lustre por um castiçal, as garçonetes por uma orquestra, o guardanapo por um cartão-postal de ilhas em Pernambuco, paraíso nosso e de Vespúcio. Chegamos muito próximo da perfeição, mas o que importa? Do nosso amor a gente é quem sabe. Preciso conduzir meus abraços até lhe fazer a barriga sentir frio. Minhas costas ainda sentem o calor do feriado. Por que só você me entende de cor e salteado? Escute os nosso sinos: só eles me despertam verdadeiramente para o futuro mais bonito.

Em meu jardim só quero você, tulipas amarelas e borboletas azuis rodeando nossos gritos de alegria. Até lá, tenho as mãos nos bolsos esperando apenas que você me cale. O seu mais simples gesto pode deixar o meu coração pelo avesso, tonto por uma parede onde possa se apoiar. Nem mesmo com Lego eu imaginaria um mundo mais suave que seus lábios. Nem mesmo Ingrid Bergman devia ter ombros tão confortáveis quanto os seus. E já não bastasse o companheirismo, beijos mais-que-sinceros coroam mais uma noite. Eu com saudades e você de sagitário: promessas de infinito.

A vida é uma festa. É tempo de cerejas! Comemoro ao seu lado a mais doce estação.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Carnaval e semiótica

Pirambu. Avisto pela janela e são panelas que avisto. As fantasias povoam as ruas e marcham sob um sotaque baiano. E se madrugo um pouco para encontrar a praia deserta, logo ela é invadida por bêbados, que enxergam turvamente em suas latas de alumínio o caminho mais estreito para a alegria instantânea. As festividades exarcebam o envolvimento das multidões e ignoram a espontaneidade envolvida em suas raízes. Uma briga no fim da tarde e cinco pessoas presas. O relógio e os pés continuam pulando. A folia é um misto de suor, espuma e cerveja.

Ligo a televisão. Descaracterizando a cultura popular, no Rio de Janeiro, mulatas usam vestes vitorianas para a satisfação de uma elite prepotentemente europeizada. O "adeus à carne" é celebrado em seu inverso e, sobrepondo-se inclusive à dança, a carne domina todas as etapas do espetáculo. A carne do garoto João Hélio foi arrastada brutalmente por sete quilômetros há poucos dias, mas o samba não pára um segundo sequer. (Quantos quilômetros tem o sambódromo?) Gosto das manifestações de rua e dos personagens regionais, mas a mistificação das festas está longe de ser uma festa.

Ainda existem ótimos refúgios (e não só em Olinda) para a cultura original, a cultura verdadeira. Faço, portanto, uma crítica apenas à mercantilização cultural excessiva. O mito é uma fala que capta um fragmento da realidade e o transforma em totalidade e, ainda pior, em verdade inquestionável. É a naturalização dos costumes burgueses. Quando todos nós nascemos, aprendemos a reproduzir e legitimar a nossa existência através de alguns estereótipos como "o jeitinho brasileiro" ou "político é tudo igual". Aprendemos também a sermos cristãos e conformados por natureza. Afinal, para os brasileiros, mudança é assunto dos céus: nós somos o carnaval.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

O telefone

O tempo destrói tudo. No fim, a gravidade sempre derruba todos os corpos e a ferrugem descolore os metais.

A chuva caindo forte. Os dois se olham, mudos, um silêncio que incomoda. Os anos passaram e as diferenças cresceram como ervas-daninhas. O telefone toca. Uma discussão se inicia. O telefone cessa. O vento é frio, embora seja verão. As vozes se tornam cada vez mais agudas. O telefone volta a tocar. Quem estaria com a razão? Os olhos lacrimejam. O telefone cessa. As vozes se tornam gritos agora. O telefone toca mais uma vez. A histeria dos gritos se somam à histeria tecnológica. O alarme do relógio se exalta e os tiros perfuram a tela plana da televisão. O telefone cessa. Que falta faria o telefone?

Nenhum cigarro na mesa. O telefone toca novamente. Um ou dois socos na mesa. Rancores fermentando lentamente. Por que tinha de ser assim? O telefone cessa. Quando um não quer, dois não brigam. O telefone retoma seu expediente. Deus descarrega sua raiva com raios e trovões. Os corações são dois tambores rufando. Um doce para quem se calar primeiro. O telefone cessa. Os olhares se encontram furiosamente. O telefone toca cada vez mais irritante. A gota d'água no meio duma tempestade. Eles viram as costas e partem em direções opostas com os nervos em chamas. Existe justiça entre os orgulhosos? Dessa vez o telefone insiste. Quem seria a essa hora da noite?

No quarto e na cozinha, os dois sequer pensam no que aconteceu. O rolo de macarrão e o travesseiro podem ser armas mortais agora. O telefone cessa. O telefone volta. A casa parece uma montanha-russa. Minutos depois o ódio começa a lesmar. O que mudou? Talvez nada tenha mudado, talvez tudo tenha mudado. Olhavam os portas-retratos espalhados pelos cômodos. Fotos do casamento, da lua-de-mel, das viagens, das crianças que dormiam no primeiro andar. O telefone cessa. Parece que tudo realmente mudou, mas isso não é bom nem mau. São apenas dois seres que tiveram a sorte de gostar demais. O telefone toca. Os dois se reencontram no quarto e engolem as mágoas. As luzes se apagam. O telefone fica fora do gancho.

O tempo destrói tudo. O amor constrói tudo.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

De volta para casa

As terças-feiras são longas e cansativas. Resolvi fazer um pouco de hora na cama e me levantei na valsa às sete e quinza. "Quem precisa de tanta pressa assim", perguntei ao meu despertador. Infelizmente, ninguém ao meu lado dividindo o travesseiro. Isso muda, isso mudará. Ao menos, pães com requeijão para o café da manhã. Vamos à universidade então. No ônibus divido os segundos entre a realidade e o sonho, entre os estudos de semiótica e as minhas melhores lembranças. O que são dez horas do dia quando se tem uma vida inteira pela frente?

Às oito e meia passo pela porta da sala semi-deserta. O professor se ausenta sem justificativa prévia. Ponto para os alunos pontuais e meio para mim, que já havia me atrasado mesmo. Pausa para comprar uns brincos. Depois ando nos calcanhares para a disciplina mais enfadonha do semestre. Pior é admitir que foi uma escolha minha. Me irritam uma aluna arrogante e uma professora que defende com unhas e dentes que ensinar não é o seu dever, pois ela não pode "nos revelar os segredos do seu ganha-pão". Paradoxalmente, a mesma pessoa diz que é um absurdo a falta de interesse e de trabalhos acadêmicos sobre a sua área de atuação. A lógica é cegada por sua vaidade.

Após o almoço e a vontade inexplicável de um abraço, uma palestra proferida pelo Magnífico Reitor. Após um início interessante, traçando um paralelo entre as universidades e as corporações de ofício (quem me dera aquela professora tivesse assistido essa palestra), o orador e sua platéia dizem que todos os estudantes são burgueses da classe média endeusados e tratados como tal por diretores de escolas, por isso querem tudo nas mãos, além de afirmarem que a culpa da irresponsabilidade dos professores é nossa. "Eles reclamam que têm que comprar luvas para aulas de laboratório, mas por que não reclamam que estão sem aula", indaga uma delas. Nada de mais, afinal, sempre adorei ser tratado como um estereótipo cultural.

Coroei meu dia com um nove em Filosofia, mas eu não queria ser rei. Voltei para casa completamente súdito de meu desejo, que escondi durante as horas e a crônica. Talvez eu esteja exagerando um pouco, mas o que a vale a vida sem os nossos exageros? A única luz que abafava meu desespero eram os postes mal-iluminados na Desembargador Maynard. Às vezes, como um flash, vejo coisas estranhas pelas janelas, mas não lembro que coisas são essas. Eu só penso mesmo em pegar o telefone e transformar minha voz em uma declaração de amor. O maior presente é ouvir a sua voz em retorno. E mesmo com um plano-relâmpago, descontruído tão rápido como foi construído, eu durmo sem medo. Meu excesso de bem-estar causa uma alegre insônia. O travesseiro com cheiro meu espera o cheiro seu.