Casa, teatro e esquina

terça-feira, fevereiro 13, 2007

O telefone

O tempo destrói tudo. No fim, a gravidade sempre derruba todos os corpos e a ferrugem descolore os metais.

A chuva caindo forte. Os dois se olham, mudos, um silêncio que incomoda. Os anos passaram e as diferenças cresceram como ervas-daninhas. O telefone toca. Uma discussão se inicia. O telefone cessa. O vento é frio, embora seja verão. As vozes se tornam cada vez mais agudas. O telefone volta a tocar. Quem estaria com a razão? Os olhos lacrimejam. O telefone cessa. As vozes se tornam gritos agora. O telefone toca mais uma vez. A histeria dos gritos se somam à histeria tecnológica. O alarme do relógio se exalta e os tiros perfuram a tela plana da televisão. O telefone cessa. Que falta faria o telefone?

Nenhum cigarro na mesa. O telefone toca novamente. Um ou dois socos na mesa. Rancores fermentando lentamente. Por que tinha de ser assim? O telefone cessa. Quando um não quer, dois não brigam. O telefone retoma seu expediente. Deus descarrega sua raiva com raios e trovões. Os corações são dois tambores rufando. Um doce para quem se calar primeiro. O telefone cessa. Os olhares se encontram furiosamente. O telefone toca cada vez mais irritante. A gota d'água no meio duma tempestade. Eles viram as costas e partem em direções opostas com os nervos em chamas. Existe justiça entre os orgulhosos? Dessa vez o telefone insiste. Quem seria a essa hora da noite?

No quarto e na cozinha, os dois sequer pensam no que aconteceu. O rolo de macarrão e o travesseiro podem ser armas mortais agora. O telefone cessa. O telefone volta. A casa parece uma montanha-russa. Minutos depois o ódio começa a lesmar. O que mudou? Talvez nada tenha mudado, talvez tudo tenha mudado. Olhavam os portas-retratos espalhados pelos cômodos. Fotos do casamento, da lua-de-mel, das viagens, das crianças que dormiam no primeiro andar. O telefone cessa. Parece que tudo realmente mudou, mas isso não é bom nem mau. São apenas dois seres que tiveram a sorte de gostar demais. O telefone toca. Os dois se reencontram no quarto e engolem as mágoas. As luzes se apagam. O telefone fica fora do gancho.

O tempo destrói tudo. O amor constrói tudo.

2 Comments:

  • aí sabe viu...?!
    to virando sua fã, camarada.
    parabpens pela produção tão criativa.
    puxei seu saco. :P
    hehehe
    té!

    By Anonymous Anônimo, at 00:49  

  • hunf....quem sera q ligou tanto pra este telefone..com certezza eu ja teria tirado do gancho...ihihihi
    ta ta ..vamu pra um comentario mais util..heheh
    mt bom mt bom....
    :***

    By Anonymous Anônimo, at 10:52  

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