Crônica de uma vida morta
Flores nas mãos. Há seis anos, todos os domingos, infalivelmente, ele subia até o cemitério no alto da colina e parava em frente ao túmulo de Luísa. Achava aquele nome muito bonito e, por isso, acreditava que ela devia ter sido muito bonita também. Passava horas olhando aquelas letras inscritas no túmulo que julgava o mais belo, apreciando as flores que sempre trazia. Era fascinado pelo mistério da morte. Aquela fascinação se misturava com uma admiração cega por aquela mulher. "Luísa", dizia baixinho às vezes. Em alguns encontros, chegou a derramar algumas gotas de sal sobre o repouso da amada.Imaginava como poderia ter sido a vida ao seu lado. Imaginava em seu rosto o rosto mais singelo. E imaginava como entregaria a própria vida por ela. Para ele, a troca era justa. Um amor incondicional, enfim. Porém, achava estranho os olhares alheios de desaprovação. Gritavam todo o tipo de eufemismo para o rapaz. "Isso não é saudável" ou "você é doente" eram palavras a que estavam habituados os seus ouvidos. E aquilo o intrigava, pois todas as músicas no rádio falavam do melhor amor, de uma vida pura e simples. Todavia, os homens se afundaram num mar de narcisismo e ganância.Ele olhava como as pessoas brigavam por motivos pequenos. Quando dois brigam, nenhum tem razão. Às vezes brigavam porque eram diferentes. Eram egoístas a ponto de ignorar que as pessoas dificilmente mudam. E por que deveriam mudar? Por que deveriam abaixar o volume, se o silêncio não é algo gostoso? Por que deveriam cessar fogo, se o mundo não ri da paciência? Por que deveriam se abraçar, se não queremos nos entregar de corpo e alma a ninguém? Por que deveríamos trazer alegria ao outro, se não existe nada tão prazeroso quanto nosso prazer? Por um instante, aquele rapaz não pensou dessa maneira.Os outdoors vendiam roupas, cartões de crédito ou viagens para Bariloche. Ele só queria um daqueles sorrisos do painel. "Luísa devia ter um desses e aposto que me daria de graça", pensou. E, com essa frase, voltou para casa satisfeito consigo mesmo. Cantarolava um verso de sua juventude que dizia que bondade era sinônimo de coragem. Passava a semana orgulhoso daquele amor que ninguém poderia lhe roubar. No outro domingo estaria, como de costume, trazendo novas flores e pensando que o mundo dos mortos era mais fácil de ser entendido que o dos vivos.
Bobagem
Todo outono é a mesma coisa. Eu sempre fico com aquela cara idiota na janela, olhando para o céu a sudeste e adivinhando se vai chover. E fico pensando se saio de chinelo ou tênis, porque pé com água cheira mal. Enquanto não me decido penso na imensidão de chances que me oferece essa vida seca. E se eu pegasse o carro e me jogasse estrada afora, como nos filmes? Bobagem. Penso também em ligar a televisão, mas o cabo foi confiscado no verão de 2001. Eu renasci então.Por que o jornal não chega logo? Hora de contar os dias até o próximo aniversário. Ainda demora. Logo hoje que eu queria perfume. Sabe de uma coisa? Eu fecho a porta e vou bater perna, mesmo descalço. Na rua, algumas pedrinhas tão pontiagudas que pareciam segredos. Deve ser o que aquele velhote de gravata chama de progresso. Afinal, quem pode ser melhor que um velho para falar do tempo que passou? E por que os carros dos filmes nunca ficam sem gasolina? Bobagem. Eles devem abastecer depois de um dia de gravações.E por que elas duas não param de gritar? Até já quebraram vidro. Eu não gosto de pisar em vidro e sei que elas também não gostam. Estranho. E o ônibus passa daqui a pouco. Uma última olhadinha naqueles olhos antes de sair. O que ela quer dizer com exceção? Exceção deve ser um tipo de anjo, de ser iluminado que se esconde da crueldade humana. Vinte e oito fugitivos em quatro dias? Devo fechar as janelas das crianças? Bobagem. Eu moro em apartamento. Às seis, o mundo se renova (ou finge muito bem). Todos os caminhos levam a Roma. E quem pretende fugir de lá? Ai, amor.
Castelo de cartas
Truco! A manhã foi como um vento soprando um castelo de cartas e os ases talvez tenham sumido para sempre. Por um instante, era como se tivessem realizado uma extorsão por telefone. Mesmo sabendo dos seus truques, não pude evitar a derrota (a minha raiva). Malditos coringas sempre atrapalhando a minha partida. Há quem goste dessa figura sinistra. O pior de tudo era sentir aquele riso de escárnio, aquele rosto pintado que ria e gozava abertamente de sua impunidade. E ver parados os reis, as damas, os valetes, como se nada estivesse acontecendo? Deviam pensar "danem-se! São apenas números". Sei que outros jogos virão...Enquanto espero, olho para o lado e vejo mãos ágeis e inteligentes. Dedos que abraçam os meus e calam o meu choro. Muitos ignoram o valor do baralho que têm consigo. Posso ter perdido uma das melhores cartas num blefe descarado, mas vence quem tem mais coração e o meu já chegou a abraçar o mundo. Consegui a manilha num lance de sorte e a conservo comigo em um misto de perseverança e paixão. Não olho os adversários nos olhos, pois eles se esquivam, têm medo de mim e deles próprios. Aos perdedores, ódio ou compaixão. Ao vencedor, tudo o que me pertencia antes.Hoje, sem que eu sequer percebesse, eles levaram a minha paz e me tornei desconfiado com todas as pessoas que não têm nome (necessito, sob pena de morte, dar nome a todas as coisas). Eu me tornei um vulcão em atividade beirando a erupção. Derrubaria quantas mesas fosse preciso para que o dia de ontem fosse maior. Mas e se não foi dessa maneira mesmo? Talvez tenha sido só um sonho ruim...isso! Só pode ter sido isso mesmo: um sonho ruim, um susto. Nada aconteceu e ainda sou o mesmo. Mas, ainda assim, não se espantem se eu mudar o meu próprio nome ou a placa do carro.
À Vênus
Dói a luz do quarto acesa. Dói a chuva fina. Dói o mormaço que a segue. Dói a roupa desfiando melancolicamente. Dói a perna depois de pedalar quilômetros. Dói a lembrança dos amigos que já se foram ou até mesmo dos que estão por ir. Dói a escassez de explicações e o excesso delas. Dói o olho vermelho que já não encontra um colírio. Dói o silêncio dos corredores de hospitais. Dói a garota de dez anos estuprada. Dói o mar sujo pelos turistas. Dói o brinquedo de plástico. Dói a adolescência enclausurada.Dói aquela viagem que não fiz. Dói a ausência do beijo. Dói a monossilábica ligação ao telefone. Dói a lágrima de outubro. Dói a incerteza do futuro. Dói não ter conseguido ir ao céu ou ao inferno. Dói a hora que não passa. Dói a saudade que não cessa. Dói a parede manchada do quarto. Dói a imensidão do espaço. Dói o dia em que não ouvi música. Dói o sono mal-dormido. Dói a rosa que não comprei. Dói saber que poucas são as mulheres que podem realmente comemorar esse oito de março.Hoje, o que não dói é poder fazer ao menos uma delas feliz.
O homem mais solitário do mundo
"Por que todo mundo sempre vai embora", perguntou o homem mais solitário do mundo. Estendeu a mão e não encontrou nada. "Antes houvesse um café, mas nem isso", pensou. Não era triste, apenas só. E, embora não vivesse na lua, todos passavam em sua vida como um eclipse. A existência alheia era um câncer que invadia lentamente a sua. O som de passos soavam em seus ouvidos como o Blitzkrieg em Guernica. Sempre brincou sozinho e é angustiante a visão de um quintal perturbado apenas por seu sorriso melancólico. Uma chuva finíssima e interminável. Guardava sempre no bolso o estilete que usava para se desenhar nas árvores.Seus relógios sempre sem pilha e os calendários rasgados por mãos invisíveis. Viu os amigos, um a um, crescerem e abandonarem os lares, se entregarem a vícios, morrerem solitariamente por balas ou facões. "Acho que não preciso deles". Seu primeiro amor nunca o amou sob algum dos trezentos e sessenta e cinco sóis do ano. Decidiu não procurar o segundo. Tornou-se amigo e escravo apenas dos seus próprios segredos e daquele tronco em que sentava para observar o vôo dos pássaros para o sul. Ficava imaginando suas próprias asas. "Quantos sonhos valem um par de asas", questionou. A caixa do correio vazia. A resposta nunca veio.Tudo mudou quando acordou e viu o tronco ocupado por alguém. Seus olhos e pensamentos vacilaram. "Por que tanto tempo depois", quis saber o homem, que já havia feito a barba quinhentas vezes. Talvez fosse sua única chance. Sentou-se ao lado daquela pessoa e, com os olhos fitando o chão, não ouviu palavra alguma. Tomou um pouco de coragem e resolveu olhá-la com pelo canto da esclerótica, mas não conseguiu decifrar o seu rosto. Até ensaiou sussurar algo, mas era impossível. Aquilo apertava o peito e só fazia doer. O desprezo é a pior forma de solidão. Talvez fosse melhor nunca ter conhecido alguém. Tirou o estilete do bolso e, como se fosse madeira nova, fez uma cruz no pulso. Antes de dormir no rio, rogou "adeus".