Casa, teatro e esquina

quarta-feira, março 21, 2007

Bobagem

Todo outono é a mesma coisa. Eu sempre fico com aquela cara idiota na janela, olhando para o céu a sudeste e adivinhando se vai chover. E fico pensando se saio de chinelo ou tênis, porque pé com água cheira mal. Enquanto não me decido penso na imensidão de chances que me oferece essa vida seca. E se eu pegasse o carro e me jogasse estrada afora, como nos filmes? Bobagem. Penso também em ligar a televisão, mas o cabo foi confiscado no verão de 2001. Eu renasci então.

Por que o jornal não chega logo? Hora de contar os dias até o próximo aniversário. Ainda demora. Logo hoje que eu queria perfume. Sabe de uma coisa? Eu fecho a porta e vou bater perna, mesmo descalço. Na rua, algumas pedrinhas tão pontiagudas que pareciam segredos. Deve ser o que aquele velhote de gravata chama de progresso. Afinal, quem pode ser melhor que um velho para falar do tempo que passou? E por que os carros dos filmes nunca ficam sem gasolina? Bobagem. Eles devem abastecer depois de um dia de gravações.

E por que elas duas não param de gritar? Até já quebraram vidro. Eu não gosto de pisar em vidro e sei que elas também não gostam. Estranho. E o ônibus passa daqui a pouco. Uma última olhadinha naqueles olhos antes de sair. O que ela quer dizer com exceção? Exceção deve ser um tipo de anjo, de ser iluminado que se esconde da crueldade humana. Vinte e oito fugitivos em quatro dias? Devo fechar as janelas das crianças? Bobagem. Eu moro em apartamento. Às seis, o mundo se renova (ou finge muito bem). Todos os caminhos levam a Roma. E quem pretende fugir de lá? Ai, amor.