Casa, teatro e esquina

quarta-feira, março 14, 2007

Castelo de cartas

Truco! A manhã foi como um vento soprando um castelo de cartas e os ases talvez tenham sumido para sempre. Por um instante, era como se tivessem realizado uma extorsão por telefone. Mesmo sabendo dos seus truques, não pude evitar a derrota (a minha raiva). Malditos coringas sempre atrapalhando a minha partida. Há quem goste dessa figura sinistra. O pior de tudo era sentir aquele riso de escárnio, aquele rosto pintado que ria e gozava abertamente de sua impunidade. E ver parados os reis, as damas, os valetes, como se nada estivesse acontecendo? Deviam pensar "danem-se! São apenas números". Sei que outros jogos virão...

Enquanto espero, olho para o lado e vejo mãos ágeis e inteligentes. Dedos que abraçam os meus e calam o meu choro. Muitos ignoram o valor do baralho que têm consigo. Posso ter perdido uma das melhores cartas num blefe descarado, mas vence quem tem mais coração e o meu já chegou a abraçar o mundo. Consegui a manilha num lance de sorte e a conservo comigo em um misto de perseverança e paixão. Não olho os adversários nos olhos, pois eles se esquivam, têm medo de mim e deles próprios. Aos perdedores, ódio ou compaixão. Ao vencedor, tudo o que me pertencia antes.

Hoje, sem que eu sequer percebesse, eles levaram a minha paz e me tornei desconfiado com todas as pessoas que não têm nome (necessito, sob pena de morte, dar nome a todas as coisas). Eu me tornei um vulcão em atividade beirando a erupção. Derrubaria quantas mesas fosse preciso para que o dia de ontem fosse maior. Mas e se não foi dessa maneira mesmo? Talvez tenha sido só um sonho ruim...isso! Só pode ter sido isso mesmo: um sonho ruim, um susto. Nada aconteceu e ainda sou o mesmo. Mas, ainda assim, não se espantem se eu mudar o meu próprio nome ou a placa do carro.