Casa, teatro e esquina

sexta-feira, abril 27, 2007

O céu de Ícaro

A noite avançando. Me desvio um pouco de seu olhar de professor e observo uma mariposa voando próximo ao teto. A camisa gotejava pinguinhos de suor, apesar de o outono já estar maduro. "Coitada", pensei. A minha desatenção aumentava com o avanço dos ponteiros. O relógio do meu vizinho é digital, a angústia é a mesma. Espio um pouco pela janela. Nada. Ainda não é hora. "Droga! Se eu demoro mais dez minutos aqui, vai ser um Deus-nos-acuda de arrancar sorriso de poste", murmuro em off, com a cabeça apoiada na mão fraca.

- No século XVIII...

Não prestei reverência. Em vez disso, escutei um zumbido. A mariposa tentava alçar vôo e se batia na parede toda vez que tentava. Será que eu precisava mesmo ficar ali? Aqueles minutos de agonia do pobre inseto me comoveram ferozmente. Sua infrutífera luta e sua perverança se assemelhavam ao meu modesto espírito de libertação. Foi uma experiência kafkiana, mas sem a tuberculose. Como Ícaro, aquele humilde artrópode teve sua queda decretada pelo excesso de luz, pela morte invejosa do excesso de vida que habitava suas asas.

- ...após uma cadeia de acontecimentos...

Fala como doutor, com aquele jeito autoritário de doutor. Quem é dono da verdade só é dono da própria ilusão. As forças do inseto se dissipam como o giz que risca o quadro. "Coitado, quem mandará os cravos se ele morrer de fraco", perguntei mentalmente. A que horas passa o ônibus? A que horas passa o amor? Preciso de carona. Após esse milésimo de distração, meu olhar se volta espantado para seus sapatos. Cruelmente, sem baixar o olhar, pisoteia com 700 Newtons meu bicho de estimação.

- ...realizam um trabalho essencialmente doutrinário.

Não ouvi o seu suspiro final. Maldito século das luzes! Maldito mundo de vencedores!

1 Comments:

  • q revolta!

    By Anonymous Anônimo, at 10:52  

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