Casa, teatro e esquina

quarta-feira, abril 11, 2007

Cores sertanejas

No armazém do Judas vendem-se pães, facas, gatos, cachorros e bicicletas. Na calçada, pessoas se esmurrando por um pedaço de céu. "Mas o céu é para todos", grita o prefeito, parecendo tão desesperado quanto o sangue amarelado daqueles infelizes, "só não entra quem já bateu as botas". No jornal, as letras desbotadas me dizem que uma família morre por uma dívida de cinco centavos ou que os jagunços do asfalto matam por um suco de laranja. Antes fosse verdade...

Meu tio-avô, com cento e noventa e cinco anos de poeira e nicotina, dorme tranqüilamente em seu travesseiro de pena de cobra. Eu gosto de atrapalhar o seu sossego. Ligo o rádio e Mozart toca um sucesso dos Beatles. Hoje em dia, até macaco assovia para ganhar um trocado. Nas ruas, uma multidão com placas levantadas pedindo TV aberta o dia inteiro. Incrível como se parecem com Zuzu Angel. Mas gosto muito do descaso e dos amores que ele desperta.

E de surto tudo reaparece normalmente. As brigas não tão constantes ou violentas como espirros. Deve ter sido o café sem açúcar. Preciso de férias? Deve ser uma solução, pois forró só é bom, afinal, se o calor tira férias. Enquanto junho não chega eu fico aqui fazendo contas e contas. Enquanto junho não chega eu fico aqui fazendo hora com a hora do Brasil. Enquanto junho não chega eu fico empurrando abril. Enquanto junho não chega eu conto piadas aos fins-de semana.