Casa, teatro e esquina

quinta-feira, maio 31, 2007

Mea culpa

Está comprovado: é assegurado o nosso direito de nos livrarmos de qualquer forma de culpa. E não digo no sentido dostoievskiano da coisa, pois esse exige ainda uma espécie de transcedência difícil para a moral ocidental. É algo que pode ser constatado nas pequenas coisas da vida, como aqueles dias em que você pisa o seu irmão e exige que ele peça desculpas por ter deixado o pé embaixo do seu. Talvez você deva estar perguntando por que eu me preocupo com coisas tão banais. Ainda que nem eu saiba a resposta, vejamos esse exemplo:

Hoje eu estou com um equipamento da universidade, portanto, se eu perdê-lo, é culpa minha, certo? Mas se eu culpar o professor que deixou esse equipamento comigo porque está fora da cidade por motivos acadêmicos? Talvez ele possa culpar os servidores que entraram em greve e o obrigou a tomar conta do patrimônio necessário para a nossa pesquisa. Então, os servidores culparão o governo que não atende a suas demandas classistas. Colocar a culpa no governo é fácil, não? Imagine só colocar a culpa no rapaz mal-encarado que roubou a câmera. É como tirar doce de boca de criança!

Talvez alguém diga que de "se" em "se", elefante pode calçar sapato de formiga. Mas sem eles, talvez eu estivesse perdido, pois são os "ses" que dão cara nova à realidade. E se nada disso acontecer? As possibilidades, os infinitos futuros é que nos proporcionam o livre-arbítrio, a possibilidade de escolha. Se a imaginação nos força a ficarmos presos aos fatos, ela também nos liberta. Estranho, não? Como é que algo nos prende e também nos liberta? Ao mesmo tempo em que crio novas conjunturas, eu reforço e reinvento a única possível, transformando-a a meu bel-prazer.

Talvez o amor também seja como um jogo de xadrez: embora fiquemos às vezes em xeque, o jogo só termina quando o rei não mais tem forças para dar um último passo.

quarta-feira, maio 23, 2007

Vila dos prazeres

A partir de hoje, está decretado que viveremos como crianças e não mais saberemos os nomes das coisas. Não mais haverá a felicidade, pois, se ela existe, é porque também existe o seu contrário, que é a falta de oportunidades para fazermos o que gostamos. A felicidade será algo tão vivo e inteligível como o é um pôr-do-sol nas areias da orla. Estar contente nunca mais será considerado desperdício, devaneio ou motivo de desprezo. Batucada, piada, poesia, vinho, sexo: nada disso mais terá lugar ou hora para acontecer.

O amor será como o vento, pois bastará estar vivo para senti-lo. Os padeiros nunca mais farão pães e os arquitetos nunca mais farão casas, mas apenas o amor. E assim o farão todos aqueles que tiverem o dom da criação. O homem nunca mais entrará em guerra com o seu semelhante, a não ser que o deixem dormir por mais do que o necessário, pois nada será mais urgente que a consciência de estar no mundo. Todo o dinheiro produzido até hoje servirá apenas para embrulhar peixe ou brincar de cara-ou-coroa.

Não haverá mais concessões para que se goze da liberdade. Atravessar a rua pulando num pé só será garantido juridicamente a todos os cidadãos. Como não haverá mais reis ou armas de fogo, também serão extintos os telejornais: em seu lugar, teremos filmes de Tim Burton. Como dizia Caetano, será proibido proibir e tudo será permitido, inclusive sonhar sem precisarmos fechar os olhos. As máscaras serão todas rasgadas, pois ninguém mais precisará ser outra pessoa senão aquela que ela sempre quis ser.

E, por último, está decretado que acabaremos com os calendários e os relógios, pois as pessoas não mais envelhecerão ou terão de se preocupar em voltar para casa: a vila inteira será um lar e estaremos sempre em ano-novo.

domingo, maio 13, 2007

No divã

Sabe o que é, doutor? Essa vida cor-de-burro-quando-foge é que me preocupa. Não sei, mas tudo parece tão descartável, tão coca-cola. Eu sempre achei que, se as coisas não foram feitas para durar, então nada vale a pena. Diga que concorda comigo: se você rega uma flor achando que ela morre amanhã, então não regue! Por outro lado, ninguém vive o futuro. Então não faz sentido você viver o presente pensando no futuro. Entende a lógica? É estranho, mas penso que as coisas são momentâneas e ao mesmo tempo eternas. É o equilíbrio, não? Isso! Só o equilíbrio salva!

Mas não ache que, porque tenho os olhos dez passos à frente, eu não sei suportar as perdas. Claro que sei. E como sei, doutor. Eu sei que meu jeito calado, comedido e ultra-tolerante não parece inspirar essa maturidade, mas é que tenho um exarcebado ceticismo para tudo. Posso estar errado, mas o que é estar certo, afinal? Levantar o troféu? Não, obrigado. Entretanto, eu insisto em acreditar demais nas pessoas. E não me arrependo, doutor! Para mim, não existem prioridades. Sempre acho que tudo é importante e merece máxima atenção e cuidados meus. Eu tenho esse coração amanteigado, essa vocação de Poliana. E adoro isso, confesso.

Eu sei que eu choro às vezes, mas sei porque choro. E acho que isso é bom, não é, doutor? Eu fujo das concepções fetichistas do que seja a amizade e outras coisas mais. Eu tenho, doutor, um amigo carioca que mora em Minas e somos dois grandíssimos companheiros, mesmo nos vendo um mês por ano. Isso é bom, não, doutor? Acho que ninguém tem razão de julgar minhas ações. Nem o senhor, doutor! Se eu sou romântico ou realista? Acho que nenhum e os dois ao mesmo tempo. Sabe de uma? Eu acho que eu sou moderno, é isso! Ou é muita prepotência minha? Não. Excesso de segurança.

Eu observo demais as pessoas e por isso deixei de acreditar nelas. Mas acredito em todas elas se sorriem sem motivo. Estranho, não? Cada pensamento meu parece uma frase solta. Se minha mente fosse virar livro, seria um poema da geração de 22. Nada. Tudo. Sabe? Deixa para lá. Eu não vou voltar na próxima semana, não. Essa consulta foi grátis? Não? Eu também não acredito nisso: pagar para alguém me ajudar. Quem disse que eu preciso de ajuda? Essa é boa, viu? Bom, já vou indo que a semana começa às sete para mim. Um abraço, viu? Foi um prazer, doutor. Aliás, não foi não: você não disse nada além do que eu já sabia.

quinta-feira, maio 03, 2007

Minuto, minuto meu

A cada minuto, uma pessoa no mundo declara alguma forma de amor. Esse exato minuto é todo meu e eu falo dela. Pois é só por ela que eu estendo tapete vermelho, faço reverência de joelhos e como óleo de fígado de bacalhau. E só por ela eu mostro as cartas da manga, explico o final da piada ou compro pão de batata na Baviera. Eu até já escrevi música para só a gente cantar o refrão. E com direito a bis. Aracaju está mais fria, mas só para os outros. Afinal, não tem jeito mesmo: aqueles que assistem Amélie Poulain abraçados no outono sempre serão grandes amantes.

Meu coração é uma bola de assopro numa sala sem janelas, sempre pronta para estourar ao menor sinal de sua voz. O telefone toca e eu não consigo conter a euforia. A garganta cansada e inflamada sempre consegue dizer alguma bela frase antes de dormir. Até quem não sabe quem eu sou, sabe ao menos para onde eu vou todos os sábados. Aliás, amor é quando a gente não consegue disfarçar. Eu tento falar dos meus sonhos, mas só falo dela. Tento falar do meu cansaço, mas só falo dela. Tento falar de Deus, mas só falo dela. Com religião eu não mexo: eu só mexo com ela.

Eu beijo o cabela dela e ela ri. Eu canto desafinado e ela ri. Eu atuo meio desastrado só para ela e ela ri. E quando ela ri, a vida é um punhadinho de peças de um quebra-cabeça que eu não sei montar sem ela. E quando a gente monta, eu percebo que nossas mãos são, na verdade uma só. Ela é um relógio e eu, um ponteiro. E só a gente sabe parar o tempo na hora que bem quiser. Aí a gente olha o céu e ele fica imóvel, por isso a gente ri das estrelas que estão sempre no mesmo lugar do mês anterior. A gente ri de tudo, eu sei, mas eu não posso evitar. A nossa vida é um banquete em Paris com discursos de Voltaire.

Cada homem é uma ilha? Então, amor, vem de barco que eu te espero lá no porto para a gente ser feliz.