Casa, teatro e esquina

quarta-feira, maio 23, 2007

Vila dos prazeres

A partir de hoje, está decretado que viveremos como crianças e não mais saberemos os nomes das coisas. Não mais haverá a felicidade, pois, se ela existe, é porque também existe o seu contrário, que é a falta de oportunidades para fazermos o que gostamos. A felicidade será algo tão vivo e inteligível como o é um pôr-do-sol nas areias da orla. Estar contente nunca mais será considerado desperdício, devaneio ou motivo de desprezo. Batucada, piada, poesia, vinho, sexo: nada disso mais terá lugar ou hora para acontecer.

O amor será como o vento, pois bastará estar vivo para senti-lo. Os padeiros nunca mais farão pães e os arquitetos nunca mais farão casas, mas apenas o amor. E assim o farão todos aqueles que tiverem o dom da criação. O homem nunca mais entrará em guerra com o seu semelhante, a não ser que o deixem dormir por mais do que o necessário, pois nada será mais urgente que a consciência de estar no mundo. Todo o dinheiro produzido até hoje servirá apenas para embrulhar peixe ou brincar de cara-ou-coroa.

Não haverá mais concessões para que se goze da liberdade. Atravessar a rua pulando num pé só será garantido juridicamente a todos os cidadãos. Como não haverá mais reis ou armas de fogo, também serão extintos os telejornais: em seu lugar, teremos filmes de Tim Burton. Como dizia Caetano, será proibido proibir e tudo será permitido, inclusive sonhar sem precisarmos fechar os olhos. As máscaras serão todas rasgadas, pois ninguém mais precisará ser outra pessoa senão aquela que ela sempre quis ser.

E, por último, está decretado que acabaremos com os calendários e os relógios, pois as pessoas não mais envelhecerão ou terão de se preocupar em voltar para casa: a vila inteira será um lar e estaremos sempre em ano-novo.

1 Comments:

  • Que coisa ler esse texto logo agora!!
    Estou ouvindo um cd de Legião Urbana, e quando comecei a ler seu texto começou a tocar "O Mundo Anda Tão Complicado".
    Poizé me pareceu que ao invés de musica e leitura, eu estava presenciando um dialogo entre ambos, uma confissão de como cada um queria que fossem todos os minutos dessa vida, sem que agente tivesse noção do que é minuto, afinal não haveria necessidade de contar o tempo!!!
    Cada um implorando pela extinção da complexidade das coisas... Pra que complicar se o prazer não esta no ato de poder chamar os amigos pra comer uma feijoada, mas na sensação de reuni-los, esquecer um pouco do trabalho e ficar de bate-papo a tarde inteira.
    Adorei quando vc diz que "Não mais haverá a felicidade, pois, se ela existe, é porque também existe o seu contrário, que é a falta de oportunidades para fazermos o que gostamos". Aíaí... Realmente, só sentimos o que é felicidade quando ela parece nos faltar... Isso é injusto... A felicidade devia ser uma coisa tão presente que agente se quer deveria ter a necessidade de dar um nome a ela... Ela deveria esta sempre impregnada, sem que agente pudesse percebê-la.
    Não deveria existir repreensão por me sentir livre e segura da minha personalidade e assim poder agir como criança, falando besteira, apostando corrida no caminho entre a padaria e minha casa, mesmo que tenha o dobro da idade de quem compartilha isso comigo...
    Quem disse que maturidade diz respeito a quantos aniversários você celebrou, maturidade diz respeito a quantas experiências vc já viveu e o que aprendeu com elas, e se vc não viver nada por medo de ser imaturo, que maturidade é essa??

    Sonhar sem fechar os olhos... Pq deixamos de fazer oq nos faz tão bem pela necessidade de construir uma vida sólida???? Pq né??

    Bom acho que já falei besteira demais!!
    Acho isso pq devo ter voltado da minha viajem a vila dos prazeres e retornado ao nosso mundo de concreto!! Affffff!!!


    Bjãooooooooooo Juninho....
    Vc a cada dia se supera!!!
    Depois escuta a musica taw!!!

    By Anonymous Anônimo, at 00:17  

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