Casa, teatro e esquina

quinta-feira, junho 28, 2007

Neve em Roma

"Não vejo a vida como ela é, mas como deveria ser". Quando eu ouvia esses versos na minha adolescência eu era apaixonado por essas palavras e hoje sei o motivo: é que eles são apaixonantes em si. É justamente nessa linha de pensamento que Benigni trabalha o conteúdo de suas obras e em seu filme mais recente, "O tigre e a neve", ele adota um posicionamento mais amadurecido do que aquele visto em "A vida é bela", a principal referência do autor italiano. Ainda adotando a guerra como pano de fundo para a criação do riso, aqui ela exerce um papel secundário e a obra adota uma preocupação mais humanística.

Com claras influências de Woody Allen no desenvolvimento dos seus protagonistas, Benigni cria personagens vislumbrantes e, ainda que alguns considerem seu poeta piegas, é o comportamento que ele desenvolve que revela sua visão de mundo. Sem que ele a imponha deliberadamente ao espectador (embora sejamos reféns do seu encanto), a catarse final nos revela que, embora se entregue completamente ao seu mundo - como nas cenas do hospital, que lembram o "Fale com ela" de Almodóvar, embora tenha um peso dramático propositalmente inferior - esse mesmo mundo ignora, através dos olhos enigmáticos de Nicoletta Braschi, as razões do seu infinito amor.

As cenas que satirizam a psicanálise freudiana nos são lançadas sem uma prévia preparação dos sentidos e o trabalho de mise-en-scène desenvolvido revelam que, nos últimos anos, Benigni conseguiu desenvolver uma estética que acomoda perfeitamente seus dramas que, se são cômicos, são talvez apenas por uma necessidade de se mostrar que o peso de viver pode, sim, ser abrandado por uma relação de bem-estar com o espaço em que se vive, ainda que esse seja uma Itália de desejos não-realizados ou um Iraque de bombas, saques e suicídios. Logo, através da transposição veloz de ambientes, Benigni transforma seu mundo particular em universal e nos mostra que, mesmo em Roma, pode nevar sobre um tigre e a vida pode ser mesmo bela.

segunda-feira, junho 18, 2007

Bem-vindos a Eldorado

Como ao ouvir os primeiros discos de Zé Ramalho, a primeira sensação ao assistir a alguma obra de Glauber Rocha é de consternação. Primeiro, por sua linguagem recortada, icônica e com elementos barrocos. Segundo, por seu conteúdo ácido, seu cinismo engajado e sua temática de edificação social. Embora não tenha gabarito suficiente para comentar sua obra completa (pois assisti a apenas dois de seus filmes), acredito que posso fazer um pequeno panorama de "Terra em transe", de 1967, que vi pela primeira vez no último fim de semana.

Em um país fictício de nome Eldorado, uma luta política se desenvolve em vários planos: a extrema-direita, representada por Porfírio Diaz (Paulo Autran), o populismo de Felipe Vieira (José Lewgoy), a intelectualidade de Paulo Martins (Jardel Filho) e a imprensa de Julio Fuentes (Paulo Gracindo). Sem maniqueísmos, o diretor faz um retrato fidedigno do Brasil na década de 60 - e, por extensão, da América Latina - mostrando o jogo de interesses existentes na política e a subjugação das massas na movimentação histórica. Entretanto, o filme não se limita ao relato desinteressado e, conscientemente, promove um olhar crítico e iconoclasta (paradoxalmente, destrói os mesmos ícones que constrói).

Se a proposta inicial parece simples, sob as lentes de Glauber Rocha o tema expande os seus próprios limites. O transe (ou baque) é materializado na estética adotada pelo cineasta baiano: os cortes rápidos de cena promovem o conflito entre as consciências e a confusão interior de um Paulo de olhar vazio, porém esperançoso para a resolução das mazelas sociais e da exclusão das massas. Aliás, as massas exercem um papel fundamental na obra e sua constante oscilação revelam o maior dos dramas da sociedade moderna: como conceder a um contingente de pessoas iletradas e despreparadas o controle das ações políticas?

A fotografia e os cenários à la Fellini são muito ricos, remetendo sempre a um local estranhamente irreal. O palácio em que Diaz é coroado parece tão absurdo que nos assustamos quando transpomos a fantasia da situação para o cotidiano. A trilha sonora de Villa-Lobos e Carlos Gomes é transcendental e as influências da Noveulle Vague na composição de cores e de contrastes são fatores que engrandecem a produção. Aliás, o embate entre Paulo e Diaz me lembrou as cenas finais da Alphaville de Godard que, ainda que adote um ponto de partida oposto ao do filme de Glauber Rocha, remete à mesma conclusão: é impossível realizar uma democracia justa sem a libertação ideológica das massas.