Neve em Roma
"Não vejo a vida como ela é, mas como deveria ser". Quando eu ouvia esses versos na minha adolescência eu era apaixonado por essas palavras e hoje sei o motivo: é que eles são apaixonantes em si. É justamente nessa linha de pensamento que Benigni trabalha o conteúdo de suas obras e em seu filme mais recente, "O tigre e a neve", ele adota um posicionamento mais amadurecido do que aquele visto em "A vida é bela", a principal referência do autor italiano. Ainda adotando a guerra como pano de fundo para a criação do riso, aqui ela exerce um papel secundário e a obra adota uma preocupação mais humanística.
Com claras influências de Woody Allen no desenvolvimento dos seus protagonistas, Benigni cria personagens vislumbrantes e, ainda que alguns considerem seu poeta piegas, é o comportamento que ele desenvolve que revela sua visão de mundo. Sem que ele a imponha deliberadamente ao espectador (embora sejamos reféns do seu encanto), a catarse final nos revela que, embora se entregue completamente ao seu mundo - como nas cenas do hospital, que lembram o "Fale com ela" de Almodóvar, embora tenha um peso dramático propositalmente inferior - esse mesmo mundo ignora, através dos olhos enigmáticos de Nicoletta Braschi, as razões do seu infinito amor.
As cenas que satirizam a psicanálise freudiana nos são lançadas sem uma prévia preparação dos sentidos e o trabalho de mise-en-scène desenvolvido revelam que, nos últimos anos, Benigni conseguiu desenvolver uma estética que acomoda perfeitamente seus dramas que, se são cômicos, são talvez apenas por uma necessidade de se mostrar que o peso de viver pode, sim, ser abrandado por uma relação de bem-estar com o espaço em que se vive, ainda que esse seja uma Itália de desejos não-realizados ou um Iraque de bombas, saques e suicídios. Logo, através da transposição veloz de ambientes, Benigni transforma seu mundo particular em universal e nos mostra que, mesmo em Roma, pode nevar sobre um tigre e a vida pode ser mesmo bela.
Com claras influências de Woody Allen no desenvolvimento dos seus protagonistas, Benigni cria personagens vislumbrantes e, ainda que alguns considerem seu poeta piegas, é o comportamento que ele desenvolve que revela sua visão de mundo. Sem que ele a imponha deliberadamente ao espectador (embora sejamos reféns do seu encanto), a catarse final nos revela que, embora se entregue completamente ao seu mundo - como nas cenas do hospital, que lembram o "Fale com ela" de Almodóvar, embora tenha um peso dramático propositalmente inferior - esse mesmo mundo ignora, através dos olhos enigmáticos de Nicoletta Braschi, as razões do seu infinito amor.
As cenas que satirizam a psicanálise freudiana nos são lançadas sem uma prévia preparação dos sentidos e o trabalho de mise-en-scène desenvolvido revelam que, nos últimos anos, Benigni conseguiu desenvolver uma estética que acomoda perfeitamente seus dramas que, se são cômicos, são talvez apenas por uma necessidade de se mostrar que o peso de viver pode, sim, ser abrandado por uma relação de bem-estar com o espaço em que se vive, ainda que esse seja uma Itália de desejos não-realizados ou um Iraque de bombas, saques e suicídios. Logo, através da transposição veloz de ambientes, Benigni transforma seu mundo particular em universal e nos mostra que, mesmo em Roma, pode nevar sobre um tigre e a vida pode ser mesmo bela.
