Casa, teatro e esquina

segunda-feira, junho 18, 2007

Bem-vindos a Eldorado

Como ao ouvir os primeiros discos de Zé Ramalho, a primeira sensação ao assistir a alguma obra de Glauber Rocha é de consternação. Primeiro, por sua linguagem recortada, icônica e com elementos barrocos. Segundo, por seu conteúdo ácido, seu cinismo engajado e sua temática de edificação social. Embora não tenha gabarito suficiente para comentar sua obra completa (pois assisti a apenas dois de seus filmes), acredito que posso fazer um pequeno panorama de "Terra em transe", de 1967, que vi pela primeira vez no último fim de semana.

Em um país fictício de nome Eldorado, uma luta política se desenvolve em vários planos: a extrema-direita, representada por Porfírio Diaz (Paulo Autran), o populismo de Felipe Vieira (José Lewgoy), a intelectualidade de Paulo Martins (Jardel Filho) e a imprensa de Julio Fuentes (Paulo Gracindo). Sem maniqueísmos, o diretor faz um retrato fidedigno do Brasil na década de 60 - e, por extensão, da América Latina - mostrando o jogo de interesses existentes na política e a subjugação das massas na movimentação histórica. Entretanto, o filme não se limita ao relato desinteressado e, conscientemente, promove um olhar crítico e iconoclasta (paradoxalmente, destrói os mesmos ícones que constrói).

Se a proposta inicial parece simples, sob as lentes de Glauber Rocha o tema expande os seus próprios limites. O transe (ou baque) é materializado na estética adotada pelo cineasta baiano: os cortes rápidos de cena promovem o conflito entre as consciências e a confusão interior de um Paulo de olhar vazio, porém esperançoso para a resolução das mazelas sociais e da exclusão das massas. Aliás, as massas exercem um papel fundamental na obra e sua constante oscilação revelam o maior dos dramas da sociedade moderna: como conceder a um contingente de pessoas iletradas e despreparadas o controle das ações políticas?

A fotografia e os cenários à la Fellini são muito ricos, remetendo sempre a um local estranhamente irreal. O palácio em que Diaz é coroado parece tão absurdo que nos assustamos quando transpomos a fantasia da situação para o cotidiano. A trilha sonora de Villa-Lobos e Carlos Gomes é transcendental e as influências da Noveulle Vague na composição de cores e de contrastes são fatores que engrandecem a produção. Aliás, o embate entre Paulo e Diaz me lembrou as cenas finais da Alphaville de Godard que, ainda que adote um ponto de partida oposto ao do filme de Glauber Rocha, remete à mesma conclusão: é impossível realizar uma democracia justa sem a libertação ideológica das massas.