A comédia da vida
Noite na cidade. Em uma rua de mão-única, pessoas se amontoam nas calçadas para ver o circo armado. Um palhaço de pistola em punhos e um velho decadente encostado em um lixeiro vazio. Poderiam ter acertado as contas em qualquer beco escuro, mas preferiram os postes bem iluminados das sextas-feiras. Tinham cansado de ser ignorados por aqueles que só queriam ver as motos, seja no globo da morte, seja alçando vôo nos quebra-molas. "É hoje que você dança", disse a boca pintada com tinta vermelha, que transmitia tanto ódio quanto brilho.
O fio da vida estava se rompendo quando veio à cabeça grisalha um pensamento que lhe pareceu absurdo: "sinto, logo existo". Talvez todos nos tornemos sábios nos últimos segundos. Aqueles pés descalços sentiam o frio que nenhum outro mais sentia e o medo que lhe comprimia o pescoço era o que o diferenciava de todos os outros velhos no mundo. A razão é só uma bobagem lógica inventada por alguns europeus mortos de cabelos longos. Se todos aqueles que sentavam no meio-fio se tornaram insensíveis, o mestre do riso era o primeiro a sofrer com isso.
Há anos não levantava aplausos com suas piadas e isso lhe trazia frustração. Precisou criar todo aquele espetáculo para que o levassem a sério. Engraçado, não? Tinha urgência de ser gravado nos corações das pessoas como tatuagem. Mas, por um instante, o rosto se tornou mais branco que a maquiagem. Sentia tanto medo quanto o seu alvo. "Vale a pena matar sem amor, apenas por egoísmo?", pensou. Os dedos cambalearam e os olhos vacilaram. Deixou a arma cair e chorou até borrar a face. Era apenas uma criança que precisava fingir ser herói.
Sob os holofotes, nunca aprendeu a viver discretamente. Nunca enxergou que não existem bons ou maus dias, mas apenas o uso que se faz deles. Também havia se tornado sábio. Se virou para ir embora, vítima de sua própria humilhação. "A comédia da vida", foi a última coisa que pensou antes de ser baleado pelas costas. Aos poucos, o sangue confunde as bolinhas amarelas com o resto do macacão. Os transeuntes voltam para suas casas. Alguns ainda têm tempo de ir a uma festa que acontece na outra esquina. Já é sábado. O vento sopra fraco como em todas as madrugadas.
O fio da vida estava se rompendo quando veio à cabeça grisalha um pensamento que lhe pareceu absurdo: "sinto, logo existo". Talvez todos nos tornemos sábios nos últimos segundos. Aqueles pés descalços sentiam o frio que nenhum outro mais sentia e o medo que lhe comprimia o pescoço era o que o diferenciava de todos os outros velhos no mundo. A razão é só uma bobagem lógica inventada por alguns europeus mortos de cabelos longos. Se todos aqueles que sentavam no meio-fio se tornaram insensíveis, o mestre do riso era o primeiro a sofrer com isso.
Há anos não levantava aplausos com suas piadas e isso lhe trazia frustração. Precisou criar todo aquele espetáculo para que o levassem a sério. Engraçado, não? Tinha urgência de ser gravado nos corações das pessoas como tatuagem. Mas, por um instante, o rosto se tornou mais branco que a maquiagem. Sentia tanto medo quanto o seu alvo. "Vale a pena matar sem amor, apenas por egoísmo?", pensou. Os dedos cambalearam e os olhos vacilaram. Deixou a arma cair e chorou até borrar a face. Era apenas uma criança que precisava fingir ser herói.
Sob os holofotes, nunca aprendeu a viver discretamente. Nunca enxergou que não existem bons ou maus dias, mas apenas o uso que se faz deles. Também havia se tornado sábio. Se virou para ir embora, vítima de sua própria humilhação. "A comédia da vida", foi a última coisa que pensou antes de ser baleado pelas costas. Aos poucos, o sangue confunde as bolinhas amarelas com o resto do macacão. Os transeuntes voltam para suas casas. Alguns ainda têm tempo de ir a uma festa que acontece na outra esquina. Já é sábado. O vento sopra fraco como em todas as madrugadas.
