Casa, teatro e esquina

terça-feira, julho 24, 2007

A comédia da vida

Noite na cidade. Em uma rua de mão-única, pessoas se amontoam nas calçadas para ver o circo armado. Um palhaço de pistola em punhos e um velho decadente encostado em um lixeiro vazio. Poderiam ter acertado as contas em qualquer beco escuro, mas preferiram os postes bem iluminados das sextas-feiras. Tinham cansado de ser ignorados por aqueles que só queriam ver as motos, seja no globo da morte, seja alçando vôo nos quebra-molas. "É hoje que você dança", disse a boca pintada com tinta vermelha, que transmitia tanto ódio quanto brilho.

O fio da vida estava se rompendo quando veio à cabeça grisalha um pensamento que lhe pareceu absurdo: "sinto, logo existo". Talvez todos nos tornemos sábios nos últimos segundos. Aqueles pés descalços sentiam o frio que nenhum outro mais sentia e o medo que lhe comprimia o pescoço era o que o diferenciava de todos os outros velhos no mundo. A razão é só uma bobagem lógica inventada por alguns europeus mortos de cabelos longos. Se todos aqueles que sentavam no meio-fio se tornaram insensíveis, o mestre do riso era o primeiro a sofrer com isso.

Há anos não levantava aplausos com suas piadas e isso lhe trazia frustração. Precisou criar todo aquele espetáculo para que o levassem a sério. Engraçado, não? Tinha urgência de ser gravado nos corações das pessoas como tatuagem. Mas, por um instante, o rosto se tornou mais branco que a maquiagem. Sentia tanto medo quanto o seu alvo. "Vale a pena matar sem amor, apenas por egoísmo?", pensou. Os dedos cambalearam e os olhos vacilaram. Deixou a arma cair e chorou até borrar a face. Era apenas uma criança que precisava fingir ser herói.

Sob os holofotes, nunca aprendeu a viver discretamente. Nunca enxergou que não existem bons ou maus dias, mas apenas o uso que se faz deles. Também havia se tornado sábio. Se virou para ir embora, vítima de sua própria humilhação. "A comédia da vida", foi a última coisa que pensou antes de ser baleado pelas costas. Aos poucos, o sangue confunde as bolinhas amarelas com o resto do macacão. Os transeuntes voltam para suas casas. Alguns ainda têm tempo de ir a uma festa que acontece na outra esquina. Já é sábado. O vento sopra fraco como em todas as madrugadas.

domingo, julho 15, 2007

O grande irmão

O rosto capturado por uma das infinitas lentes que o rodeavam. "Deve haver mais lentes que estrelas no céu", pensava enquanto corria para o conforto de algum lugar que não sabia qual. Tinha medo de, por tanto ver seus olhos em outras superfícies que não no reflexo dos olhos amados, não poder mais identificar aquilo que, um dia, julgou belo. E se do meu sorriso fizerem o riso? E se do meu choro fizerem a amargura? Quem disse que minhas emoções seriam um dia pretexto para o despertar de outras?

Espantava-se com a avidez daqueles que faziam tudo para ter o nariz pintado numa revista, num filme, numa embalagem de sabão em pó. Meu avô já dizia que a inocência é perdida quando você começa a sorrir para as lentes, para os milhões de objetivas que tentam a todo o instante arrancar a sua alma. Gostava mesmo era de fechar os olhos por vários minutos. Acreditava que as cores eram ilusões e, como água no deserto, você passa a se apoiar na esperança de sua existência apenas porque precisa sobreviver.

Por que aquele incessante pisque-pisque tanto o atormentava? Possuía, como todos os homens, um coração hermético e desaprovava a falsa segurança daqueles que o compartilhavam como quem reparte o pão. Desgostava as vozes no pé do ouvido julgando sua fraqueza, seu silêncio, sua utopia de que era possível o convívio baseado no respeito dos sentimentos e agires alheios. E daí que tentassem a todo o instante destruir os seus valores antiquados e soberbos? Não conseguiriam.

Dentro desse imenso reality show, ainda conseguia ser suficientemente real para não capitular, não dançar nesse baile de máscaras. Fugia da solidão do mundo de Argos como a chuva foge do sol. "As aparências enganam", pensava enquanto corria em busca de seu amor, que, de tanto ser chamado cego, se tornou o único rei em um reino onde pouco se vê.