Casa, teatro e esquina

domingo, julho 15, 2007

O grande irmão

O rosto capturado por uma das infinitas lentes que o rodeavam. "Deve haver mais lentes que estrelas no céu", pensava enquanto corria para o conforto de algum lugar que não sabia qual. Tinha medo de, por tanto ver seus olhos em outras superfícies que não no reflexo dos olhos amados, não poder mais identificar aquilo que, um dia, julgou belo. E se do meu sorriso fizerem o riso? E se do meu choro fizerem a amargura? Quem disse que minhas emoções seriam um dia pretexto para o despertar de outras?

Espantava-se com a avidez daqueles que faziam tudo para ter o nariz pintado numa revista, num filme, numa embalagem de sabão em pó. Meu avô já dizia que a inocência é perdida quando você começa a sorrir para as lentes, para os milhões de objetivas que tentam a todo o instante arrancar a sua alma. Gostava mesmo era de fechar os olhos por vários minutos. Acreditava que as cores eram ilusões e, como água no deserto, você passa a se apoiar na esperança de sua existência apenas porque precisa sobreviver.

Por que aquele incessante pisque-pisque tanto o atormentava? Possuía, como todos os homens, um coração hermético e desaprovava a falsa segurança daqueles que o compartilhavam como quem reparte o pão. Desgostava as vozes no pé do ouvido julgando sua fraqueza, seu silêncio, sua utopia de que era possível o convívio baseado no respeito dos sentimentos e agires alheios. E daí que tentassem a todo o instante destruir os seus valores antiquados e soberbos? Não conseguiriam.

Dentro desse imenso reality show, ainda conseguia ser suficientemente real para não capitular, não dançar nesse baile de máscaras. Fugia da solidão do mundo de Argos como a chuva foge do sol. "As aparências enganam", pensava enquanto corria em busca de seu amor, que, de tanto ser chamado cego, se tornou o único rei em um reino onde pouco se vê.

2 Comments:

  • "Acreditava que as cores eram ilusões"..
    Isso me lembra uma conversa sobre a realidade relativa!
    E o final, o que dizer? Chave de ouro.

    Mt bom! Profundo, introspectivo, bem um estilo juninho de escrever!
    Xeroo e parabéns!

    By Anonymous Anônimo, at 23:06  

  • perfeito..perfeito mor..no inicio quase nao entendo sobre o quê se tratava, mas depois, e ainda assim com palavras introspectivas, vc deixa claro aos nossos olhos e coraçoes uma mensagem mt bonita e verdadeira...quem sabe nao seja um texto "auto-biografico" , se te conheço?!!
    alias, eh mt bom tambem poder praticar interpretaçao de texto com vc, menino..que jogo de palvras hein?!
    beijoooooooooooooo mor

    By Anonymous Anônimo, at 20:34  

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