Casa, teatro e esquina

sábado, agosto 25, 2007

Conversa de brechó

- Estou envelhecendo.
- Como é?
- Você ouviu. Estou envelhecendo.
- Fala quem te deixou dessa vez.
- Não é nada disso. Não estou me queixando de nada.
- Hunf! Você pode até enganar os leitores, mas não a mim.
- É justamente sobre isso que eu quero falar.
- Lá vem você e suas conversas chatas...
- O que é que você tem? Sempre com esse cinismo para cima de mim!
- Calma, não precisa se exaltar. É que sei quando você vai começar um de seus solilóquios. Mas vá em frente, não vou dizer mais nada.
- Sim. Como eu ia dizendo, eu estou envelhecendo.
- E...?
- Você não percebe?
- O quê? Todos nós estamos envelhecendo. Ou você nunca percebeu isso?
- Mas poucos param para pensar na beleza da maturidade.
- E o que há de belo em ganhar rugas ou cabelos brancos?
- Não falo do corpo. O corpo é algo efêmero, passageiro.
- E assim o são também os nossos sentimentos.
- Mas as marcas que eles nos deixam não são.
- Ih...explique-se.
- Sabe quando você vê um semblante sério, um olhar melancólico, os ombros fortes de quem carrega o mundo nas costas?
- Como Cipriano Algor, de Saramago?
- Isso! O peso, a tristeza, a humilhação: é isso que transforma a vida em poesia. A constante superação é a matéria-prima da nossa existência. Sem isso, somos apenas um vento, que nunca finca raízes.
- E quanto às alegrias?
- Só têm valor na glória, na vitória. Alegrias gratuitas não me interessam.
- E o que isso tem a ver com a velhice?
- Hoje só a velhice pode ser associada à experiência, à reflexão e à sinceridade. Além disso, só a velhice confere verdadeiro valor e significado às nossas lembranças.
- Você acha que a liberdade juvenil não é sincera?
- Que tipo de liberdade é essa? Se for a inconseqüência, que se realize longe dos meus olhos. A única liberdade que me agrada é a transgressora.
- Ser inconseqüente não é ser transgressor?
- Não, não e não! O que alguns idiotas fizeram foi associar o descompromisso à juventude. Então, se for, assim, eu renego a minha juventude!
- Revoltado...
- Com causa e me orgulho piamente disso! Eu odeio a leveza do segundo que não volta. Não consigo imaginar alguém vivendo sem paredes. Não posso viver desabraçado de tudo aquilo que amo.
- E quando se ama o não-amor?
- É um paradoxo insolucionável e, por isso mesmo, impossível. Não amar o amor não quer dizer que se ama o não-amor.
- Acho que você está caindo em contradição. Talvez esteja mesmo ficando velho.
- Bah! Que se negue o amor, mas que o faça em compromisso a qualquer coisa que não o descompromisso.
- Fico triste de vê-lo tão amargo. Perdeu o bonde e a esperança. Você precisa de uma viagem, de uma válvula de escape.
- Mas eu escrevo...
- Conhece o cúmulo do silêncio?
- Não. Qual é?
- (...)
- (...)

segunda-feira, agosto 13, 2007

A perda das horas

Por que a pressa se amanhã, afinal, não existe? Eu já dizia - compassadamente - que as flores podem não estar na cidade em que se pretende chegar. E por que esses automóveis tanto te acompanham em seus passos? O que era caminho se tornou estrada e o que era curva se tornou reta. Gostava de quando a gente andava e parava, andava e parava, andava e parava, apreciando cada pedacinho de verde que não precisava de permissão estatal para crescer ou se manter em um local afastado das placas.

Gostava do tempo em que se viviam os dezenove como se fossem os dezenove, e não a preparação para os vinte ou os oitenta. Ah, tempo bom! É de se deliciar lembrar as crianças que brincavam com imaginação e os pais não precisavam dizer que só o real salva, só o real é que tem valor sobre a terra. Mentira deslavada, daquelas de destruir sonho ou bolo de aniversário. Foram-se os dias em que se acendiam menos velas, mas todas elas queimavam com intensa paixão até o último branco da cera.

O amor era regrado apenas pelo infinito que o momento oferece, aquele infinito que pode não durar por todas as horas, mas que tem paredes de algodão. Se no inferno o passado se apresenta sempre em forma de presente, eu nego isso de olhos abertos e não deixo o meu sorriso ser a sombra do sorriso de outrora. Transformo o que já não existe mais em assunto de conversa de bar, de cama vazia ou de papel novo. Aliás, essa nostalgia angustiante não me provoca choro, mas o deleite de se estar vivo e iluminado.

Ignoro tudo o que não for agora. Já é hora, aliás. Vou me lançar por aí.