Casa, teatro e esquina

terça-feira, setembro 25, 2007

Surpresa

A noite já ia longe quando teve uma súbita vontade de ligar para ela. Hesitou por um instante, tomou mais um gole de café, pegou o telefone e colocou de volta na mesa, rindo, como quem achava aquilo a maior bobagem. Um segundo depois a vontade beliscou o coração de novo. E se ela estivesse dormindo? Como devia ser ruim ter o sétimo sono interrompido. E logo ela, que, quando dormia, tinha rosto de criança, suspiro de criança e cheiro de criança. Lisa pele de flor. Se ela fazia biquinho, ele morria.

Decidiu ligar. Um aviso da operadora de telefonia o alertou para uma nova promoção. Era o acaso, aquela pequena mão invisível que coloca as cartas do baralho em seus devidos lugares. Em uma noite de maio de lua minguante, poderiam ter lançado um seis, mas o acaso trouxe um nove. Desde então, não se joga outra coisa que não o amor. O pecado original foi perdoado. Aqueles beijos só poderiam ter gosto de algo parecido com o céu. Naqueles braços ele voava como os anjos entre as nuvens de algodão-doce.

Dessa vez daria certo. Dedicaria àquela voz as estrelas mais belas do céu. A lua crescente seria um berço para embalar o seu final de madrugada. Não estava satisfeito. Era preciso mais. Eram preciso flores, bombons, passagens de trem. A linha já chamara três vezes. Era preciso um abraço pelas costas, uma surpresa que marcasse o corpo e a alma. Era preciso conhecer cada partícula daquele olhar, assim como o bom turista conhece todos os cartões-postais dos locais que visita. Era preciso morar dentro dela.

Ela atende. Preciso dizer que te amo. Só isso. Não, não. Preciso dizer que te adoro, que sem você eu não vivo, que você é a razão de meu sorriso, meu porto seguro, minha zona de paz. Só tenho olhos para os seus. Sim, sim, é de verdade, é do coração. Por favor, durma bem. Pense em mim. Eu te ligo às sete, te pego às oito e estamos na praia às nove. Dessa vez eu pago a água-de-côco. Até amanhã, amor. Desligou mansamente o telefone e também dormiu, profundamente satisfeito consigo mesmo.

terça-feira, setembro 04, 2007

João e Maria

O olhar vazio fitava o mesmo teto que, outrora, testemunhou cenas de um amor violento e sincero. "O único coração que vive em paz é o que já não bate mais", pensou. Tentava se confortar com a formulação de uma idéia original, mas que, na realidade, não alterava em nada o desrumo que tomou a sua vida. As recordações eram tão letárgicas quanto um orgasmo. O vento forte fazia as janelas tremerem de frio. O sopro fino que ultrapassava o vidro mal fechado era como um uivo. Não resistiu e se foi.

Enquanto ligava o carro, lembrava das vezes em que aquela cabeça havia dormido silenciosamente sobre o seu peito nu. Sentia-se completo e vazio diante de tal situação. Os pneus derrapando acordariam todos os vizinhos se eles já não estivessem acostumados com seu instinto quase selvagem. No dia em que se conheceram, brincavam de atirar pedras num lago, quando ele quebrou a janela de uma casa e eles correram alegremente como João e Maria. Inocentes que eram, ignoravam as bruxas que rodeiam todos os passos infantis.

Teve uma idéia quase brilhante e original: comprou flores no caminho. Por ter, digamos, uma veia pouco poética, comprou alguns cravos. A atendente agradeceu as moedas e fez zombarias às suas costas. Os mendigos sofriam com aquele gasto que, aos seus olhos, era supérfluo. Maldições à parte, acelerou novamente em direção àquele endereço. Beijavam-se continuamente, sem cortes. O mar cantava uma bela canção. Ele tinha medo dos silêncios, exceto daquele, que se parecia com o intervalo entre os atores e os aplausos.

Chegou cheio de suor e esperança. Viu as luzes que estavam apagadas. Uma pequena incompatibilidade do destino, até o momento em que o carteiro, que fazia hora-extra, disse que havia se mudado com o filho. "Filho? Foi aquela janela no lago, só pode ter sido", indagou-se desnorteado. Logo ele, sempre tão cético. Como João, marcou o caminho de volta com aqueles cravos que carregava, tão mal-amados, sem saber que passarinhos se encarregaram de destruir o seu sonhado retorno.