Surpresa
A noite já ia longe quando teve uma súbita vontade de ligar para ela. Hesitou por um instante, tomou mais um gole de café, pegou o telefone e colocou de volta na mesa, rindo, como quem achava aquilo a maior bobagem. Um segundo depois a vontade beliscou o coração de novo. E se ela estivesse dormindo? Como devia ser ruim ter o sétimo sono interrompido. E logo ela, que, quando dormia, tinha rosto de criança, suspiro de criança e cheiro de criança. Lisa pele de flor. Se ela fazia biquinho, ele morria.
Decidiu ligar. Um aviso da operadora de telefonia o alertou para uma nova promoção. Era o acaso, aquela pequena mão invisível que coloca as cartas do baralho em seus devidos lugares. Em uma noite de maio de lua minguante, poderiam ter lançado um seis, mas o acaso trouxe um nove. Desde então, não se joga outra coisa que não o amor. O pecado original foi perdoado. Aqueles beijos só poderiam ter gosto de algo parecido com o céu. Naqueles braços ele voava como os anjos entre as nuvens de algodão-doce.
Dessa vez daria certo. Dedicaria àquela voz as estrelas mais belas do céu. A lua crescente seria um berço para embalar o seu final de madrugada. Não estava satisfeito. Era preciso mais. Eram preciso flores, bombons, passagens de trem. A linha já chamara três vezes. Era preciso um abraço pelas costas, uma surpresa que marcasse o corpo e a alma. Era preciso conhecer cada partícula daquele olhar, assim como o bom turista conhece todos os cartões-postais dos locais que visita. Era preciso morar dentro dela.
Ela atende. Preciso dizer que te amo. Só isso. Não, não. Preciso dizer que te adoro, que sem você eu não vivo, que você é a razão de meu sorriso, meu porto seguro, minha zona de paz. Só tenho olhos para os seus. Sim, sim, é de verdade, é do coração. Por favor, durma bem. Pense em mim. Eu te ligo às sete, te pego às oito e estamos na praia às nove. Dessa vez eu pago a água-de-côco. Até amanhã, amor. Desligou mansamente o telefone e também dormiu, profundamente satisfeito consigo mesmo.
Decidiu ligar. Um aviso da operadora de telefonia o alertou para uma nova promoção. Era o acaso, aquela pequena mão invisível que coloca as cartas do baralho em seus devidos lugares. Em uma noite de maio de lua minguante, poderiam ter lançado um seis, mas o acaso trouxe um nove. Desde então, não se joga outra coisa que não o amor. O pecado original foi perdoado. Aqueles beijos só poderiam ter gosto de algo parecido com o céu. Naqueles braços ele voava como os anjos entre as nuvens de algodão-doce.
Dessa vez daria certo. Dedicaria àquela voz as estrelas mais belas do céu. A lua crescente seria um berço para embalar o seu final de madrugada. Não estava satisfeito. Era preciso mais. Eram preciso flores, bombons, passagens de trem. A linha já chamara três vezes. Era preciso um abraço pelas costas, uma surpresa que marcasse o corpo e a alma. Era preciso conhecer cada partícula daquele olhar, assim como o bom turista conhece todos os cartões-postais dos locais que visita. Era preciso morar dentro dela.
Ela atende. Preciso dizer que te amo. Só isso. Não, não. Preciso dizer que te adoro, que sem você eu não vivo, que você é a razão de meu sorriso, meu porto seguro, minha zona de paz. Só tenho olhos para os seus. Sim, sim, é de verdade, é do coração. Por favor, durma bem. Pense em mim. Eu te ligo às sete, te pego às oito e estamos na praia às nove. Dessa vez eu pago a água-de-côco. Até amanhã, amor. Desligou mansamente o telefone e também dormiu, profundamente satisfeito consigo mesmo.
