João e Maria
O olhar vazio fitava o mesmo teto que, outrora, testemunhou cenas de um amor violento e sincero. "O único coração que vive em paz é o que já não bate mais", pensou. Tentava se confortar com a formulação de uma idéia original, mas que, na realidade, não alterava em nada o desrumo que tomou a sua vida. As recordações eram tão letárgicas quanto um orgasmo. O vento forte fazia as janelas tremerem de frio. O sopro fino que ultrapassava o vidro mal fechado era como um uivo. Não resistiu e se foi.
Enquanto ligava o carro, lembrava das vezes em que aquela cabeça havia dormido silenciosamente sobre o seu peito nu. Sentia-se completo e vazio diante de tal situação. Os pneus derrapando acordariam todos os vizinhos se eles já não estivessem acostumados com seu instinto quase selvagem. No dia em que se conheceram, brincavam de atirar pedras num lago, quando ele quebrou a janela de uma casa e eles correram alegremente como João e Maria. Inocentes que eram, ignoravam as bruxas que rodeiam todos os passos infantis.
Teve uma idéia quase brilhante e original: comprou flores no caminho. Por ter, digamos, uma veia pouco poética, comprou alguns cravos. A atendente agradeceu as moedas e fez zombarias às suas costas. Os mendigos sofriam com aquele gasto que, aos seus olhos, era supérfluo. Maldições à parte, acelerou novamente em direção àquele endereço. Beijavam-se continuamente, sem cortes. O mar cantava uma bela canção. Ele tinha medo dos silêncios, exceto daquele, que se parecia com o intervalo entre os atores e os aplausos.
Chegou cheio de suor e esperança. Viu as luzes que estavam apagadas. Uma pequena incompatibilidade do destino, até o momento em que o carteiro, que fazia hora-extra, disse que havia se mudado com o filho. "Filho? Foi aquela janela no lago, só pode ter sido", indagou-se desnorteado. Logo ele, sempre tão cético. Como João, marcou o caminho de volta com aqueles cravos que carregava, tão mal-amados, sem saber que passarinhos se encarregaram de destruir o seu sonhado retorno.
Enquanto ligava o carro, lembrava das vezes em que aquela cabeça havia dormido silenciosamente sobre o seu peito nu. Sentia-se completo e vazio diante de tal situação. Os pneus derrapando acordariam todos os vizinhos se eles já não estivessem acostumados com seu instinto quase selvagem. No dia em que se conheceram, brincavam de atirar pedras num lago, quando ele quebrou a janela de uma casa e eles correram alegremente como João e Maria. Inocentes que eram, ignoravam as bruxas que rodeiam todos os passos infantis.
Teve uma idéia quase brilhante e original: comprou flores no caminho. Por ter, digamos, uma veia pouco poética, comprou alguns cravos. A atendente agradeceu as moedas e fez zombarias às suas costas. Os mendigos sofriam com aquele gasto que, aos seus olhos, era supérfluo. Maldições à parte, acelerou novamente em direção àquele endereço. Beijavam-se continuamente, sem cortes. O mar cantava uma bela canção. Ele tinha medo dos silêncios, exceto daquele, que se parecia com o intervalo entre os atores e os aplausos.
Chegou cheio de suor e esperança. Viu as luzes que estavam apagadas. Uma pequena incompatibilidade do destino, até o momento em que o carteiro, que fazia hora-extra, disse que havia se mudado com o filho. "Filho? Foi aquela janela no lago, só pode ter sido", indagou-se desnorteado. Logo ele, sempre tão cético. Como João, marcou o caminho de volta com aqueles cravos que carregava, tão mal-amados, sem saber que passarinhos se encarregaram de destruir o seu sonhado retorno.

2 Comments:
incrivel semelhança com um momento pessoal meu! axo q os passarinhos chamados tempo seria a melhor resposta para o fim desse conto! mais uma vez fico a segurar o queixo ateh q se refixe ao lugar de origem! parabéns!
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Filipe Freitas, at 01:39
um dos melhores textos seus que já li.
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Anônimo, at 21:35
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