Mar negro
Sinto que a febre pode me atingir a qualquer momento. O céu parece o mesmo filmado por Kurosawa. São os mesmos fantasmas de sempre, acordados por uma raiva momentânea e fútil. Culpa da falta de fineza dos que mordem. A mim, o que falta é um pouco de resiliência, essa nobre virtude dos sábios de espírito. Não consigo jogar no mar todas as pedras que me atiram, por isso continuo aqui deitado, contando cada uma delas e lhes dando um nome (um hábito romântico), como num romance de Kundera.
A tempestade fica um pouco mais barulhenta. E se tívessemos a chance de escolher entre um passado sem manchas e um futuro brilhante? Pessoalmente, ficaria com a primeira opção. Não sou saudosista, admito, mas de um outro tipo ainda mais utópico: os que gostariam de mudar o que já foi. Envelheço anos com essa luta homérica, na tentativa de apagar algumas frases da memória. Com isso me encolho e vejo as dores passarem como raios que me tiram a paz. As paredes parecem cair de tanto balançar.
Mas quando estava só, mesmo com todos os melodramas e defeitos, você me deu o leme do barco. Depositei toda a água que engoli na curva do teu seio e deixei o mar nos levar até qualquer direção. Agora já não importa mais: gritem o que quiser, matem o que puder. Estamos sós. A brisa forte cobre os seus olhos de ouro velho com os cabelos salgados. E, embora essa angústia tente me engolir pelas bordas, sei que a sua boca sempre será luz. A vida transborda no convés e eu não consigo olhar o sol.
Deixar o horizonte tomar conta do olhar enquanto me delicio nos seus braços. Isso só pode ser a felicidade e agradeço por cada um desses segundos que me enchem o peito.
A tempestade fica um pouco mais barulhenta. E se tívessemos a chance de escolher entre um passado sem manchas e um futuro brilhante? Pessoalmente, ficaria com a primeira opção. Não sou saudosista, admito, mas de um outro tipo ainda mais utópico: os que gostariam de mudar o que já foi. Envelheço anos com essa luta homérica, na tentativa de apagar algumas frases da memória. Com isso me encolho e vejo as dores passarem como raios que me tiram a paz. As paredes parecem cair de tanto balançar.
Mas quando estava só, mesmo com todos os melodramas e defeitos, você me deu o leme do barco. Depositei toda a água que engoli na curva do teu seio e deixei o mar nos levar até qualquer direção. Agora já não importa mais: gritem o que quiser, matem o que puder. Estamos sós. A brisa forte cobre os seus olhos de ouro velho com os cabelos salgados. E, embora essa angústia tente me engolir pelas bordas, sei que a sua boca sempre será luz. A vida transborda no convés e eu não consigo olhar o sol.
Deixar o horizonte tomar conta do olhar enquanto me delicio nos seus braços. Isso só pode ser a felicidade e agradeço por cada um desses segundos que me enchem o peito.
