Casa, teatro e esquina

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Águas mortas

Certa vez o chuveiro em casa dele deu goteira. Correu e pegou um balde para não desperdiçar água. E o dia durou cinco baldes cheios. "Preciso de novos baldes", pensou. Não tinha dinheiro para trocar o encanamento e não queria também deixar aqueles banhos irem ralo abaixo. Chegou a ficar feliz com a possibilidade de distribuir água nas vizinhanças. O acaso criou caso: sua vida tomara um novo rumo e ele sequer se deu conta de que o sonho poderia impor paredes.

Em seguida o telefone em casa dela chamou três vezes. Correu e atendeu com voz inerte. E o dia durou cinco conversas animadas. "Preciso logo lhe confessar tudo", pensou. Não tinha coragem para admitir que o ressentimento pingava e não queria também passar enxada sobre aquela terra construída. Chegou a ficar desorientada com a possibilidade de chorar soluços. A ferida criou vida: seu caso tomara um novo rumo e ela sequer se deu conta de que o sonho poderia fugir aos dedos.

À noite, ela chega de surpresa. Ele já enchia mais um balde. "Todos vão ficar muito felizes", exclamou ele. "Espero que você também fique", suspirou ela. Depois de um silêncio incômodo, ela já não o amava mais. "O que nós temos na mão são uns poucos baldes cheios", murmurou ele. O futuro ficou entreaberto, como a porta que ela não fechou por inteiro ao sair. Aos poucos, a carência se tornou solidão e ela já poderia andar sozinha. Olheiras calejadas. Um banho frio ao amanhecer.